A PERSEGUIO
Sidney Sheldon




{Este livro foi digitalizado por Katia Oliveira e
revisado Por um sintetizador de voz, portanto poder encontrar
algumas palavras separadas ao longo do texto}



Sidney Sheldon

A Perseguio

Traduo de

A. B. PINHEIRO DE LEMOS

59 EDIO

E D I T O R A R E C O R D RIO DE JANEIRO o SO PAULO

2000

CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Sheldon, Sidney, 1917
 A perseguio 1 Sidney Sheldon; traduo de Pinheiro de Lemos. - Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.

Traduo de: Mie Chase

1. Lteraturajuvenil. 1. Lemos, A. B. Pinheiro de (Alfredo Barcelos Pinheiro
de), 1938-         . II. Ttulo.



Ttulo original norte-americano THE CHASE

Copyright O 1994, 1993 by Sheldon Literary Trust

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A Perseguio: - Sinopse

O livro parece um jogo de vida ou morte.  uma emocionante aventura de
um adolescente que, longe de casa, vive uma experincia inovadora e
fascinante que faz com que mude radicalmente seu modo de ver o mundo.
Masao Matsumoto acaba de tornar-se herdeiro de uma imensa fortuna, mas
vive um pesadelo que comea assim que chega aos EUA para resgatar os
pais mortos num acidente areo. Sua vida passa a correr perigo. E o que
 pior: a pessoa que quer elimin-lo  nada menos que o prprio tio. S
resta a ele fugir e tentar encontrar a muitos quilmetros dali, a nica
pessoa que poder ajud-lo. O problema  que est sem dinheiro num pas
totalmente desconhecido. No pode confiar em ningum. Mesmo assim ele
descobre a solidariedade humana e testemunha a luta pela sobrevivncia
das pessoas que vivem uma realidade completamente diferente da sua. E h
ainda outras surpresas como a bela Sanae, que desperta no jovem herdeiro
sentimentos novos e profundos. .. .. .. .. ..


PRLOGO

Cuidado!

O piloto sabia que iam morrer.
O jato Silver Arrow de doze passageiros era sacudido de um lado para outro no cu, como se fosse um mero
brinquedo, pelos fortes ventos sobre as montanhas Apalaches, no norte do estado
de Nova
York. O piloto e o copiloto faziam o maior esforo para manter erguido o nariz
do avio, lutando contra as terrveis correntes de ar descendentes. Era um
magnfico
avio, muito bem projetado, construdo com extremo cuidado. Durante os ltimos
minutos, no entanto, os motores haviam comeado a falhar.

Um dos dois passageiros no luxuoso compartimento posterior foi at a carlinga e
disse:

- H alguma coisa errada com a alimentao de combustvel. Os motores no esto
com potncia suficiente.

Em circunstncias normais, o piloto teria ordenado ao passageiro que voltasse
para seu lugar. Mas aquelas no eram circunstncias normais.
O passageiro projetara e construra aquele avio. Era o Sr. Yoneo Matsumoto,
fundador e presidente do conselho de administrao de um dos maiores
conglomerados do
mundo.

- Estamos perdendo toda a nossa potncia explicou o piloto.

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Eles sabiam o que isso significava. A visibilidade era zero, e ao redor os picos
mortferos e invisveis das montanhas os esperavam. Sem potncia suficiente, o
avio
no teria como subir o bastante para se livrar do perigo.

E o avio j comeava a perder altitude. Yneo Matsumoto estudou os instrumentos
por um momento e depois voltou ao compartimento de passageiros, ao encontro da
esposa,
Eiko. No havia medo no rosto de Eiko, apenas uma expresso de paz e aceitao.
Ele pegou a mo da esposa, que lhe sorriu, os olhos transbordando de amor.

Yoneo Matsumoto, estava pronto para se encontrar com a morte. Levara uma vida
movimentada

e satisfatria, realizara mais do que a maioria dos homens. Partindo do nada,
criara as Indstrias Matsumoto, um conglomerado de que qualquer homem podia se
orgulhar.
linha milhares de empregados, trabalhando em uma dzia de fbricas espalhadas
pelo mundo, era bem considerado e respeitado.

Sua mente retornou ao incio, quando era muito jovem e acabara de sair da
universidade. Possua um talento natural para a eletrnica. Recebera muitas
ofertas de
emprego, mas conhecera e se apaixonara por Eiko, que o encorajara a

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criar sua prpria empresa. Durante os primeiros cinco anos, trabalhara dia e
noite, tentando ganhar dinheiro suficiente para sustentar Eiko e o filho
pequeno, Masao.
Fora um caminho difcil o que Yoneo Matsurnoto escolhera, mas ele era ambicioso
e talentoso, e nada podia det-lo. Pouco a pouco, sua empresa prosperara.
Adquirira
outras empresas, criando as Indstrias Matsumoto, um gigantesco conglomerado que
operava no mundo inteiro, fabricando avies e computadores, cmeras e rdios,
aparelhos
de televiso e uma centena de outros produtos...

Os pensamentos foram interrompidos por uma repentina trovoada, acompanhando o
claro de um raio, que iluminou o cu, como a exploso de um enorme rojo. Por
um instante,
as pessoas no avio puderam divisar o que havia l fora. Estavam cercadas pelos
perigosos picos das montanhas. Depois, o claro se desvaneceu e voltaram a
mergulhar
na escurido. Yoneo Matsumoto apertou com mais fora a mo da esposa. Em poucos momentos, suas vidas
chegariam ao fim; mas contavam com seu amado filho, Masao, para continuar. Masao, herdaria o imprio Matsumoto e saberia conduzi-lo com extrema
competncia.

i

Outro raio riscou o cu e eles contemplaram uma cena do inferno:
picos nevados, nuvens escuras turbilhonando e bem  frente a encosta de
uma montanha que parecia se projetar na direo do avio. Segundos depois, o
mundo pareceu explodir em mil e um fragmentos em chamas.

E, depois, houve um profundo silncio, rompido apenas pelo uivo do vento,
soprando pela paisagem interminvel e solitria.

Aceita mais um caf?

No, obrigado.

A onze mil quilmetros de distncia, numa aprazvel comunidade suburbana de
Tquio, Masao Matsumoto comia o seu desjejum. Masao era um rapaz bonito, dezoito
anos, alto e forte, um rosto sensvel, olhos brilhantes e inteligentes. Herdara a
fora do pai e a gentileza da me, uma combinao que o tornava muito especial.
Fora o primeiro de sua turma na escola secundria. Era um lder natural, como seu pai
tambm fora. Ex-capito da equipe de beisebol da escola, era popular entre os
colegas. Gostava de danar e, de vez em quando, se no estava ocupado com os deveres de
casa, freqentava as discotecas de Shinjuku.

A famlia Matsumoto era uma das mais ricas

e poderosas do mundo, mas Masao no se deixava impressionar por isso. Julgava as
pessoas por seus mritos como indivduos e tinha mui
tos amigos.

Fora criado para acreditar que a decncia e a integridade eram as maiores
realizaes na vida, e possua um profundo senso de honra. Seus heris eram os
guerreiros
samurais, que haviam lutado, e s vezes morrido, por seus ideais.

Masao passava as frias trabalhando na fbri
ca Matsumoto em Tquio, antes de ingressar na universidade. Tinha o mesmo
talento do pai para a eletrnica, e idias prprias, que tencionava pr em
prtica um dia.

Agora, quando Masao terminava o desjejum, seu tio, Teruo Sato, e sua tia,
Sachiko, entraram na sala. Masao levantou-se.

- Teruo-Ojisan, Sachiko-obasan.

A tia tocou em seu brao e murmurou:
- Masao-chan.

Masao gostava da tia Sachiko; irm de seu pai, no tinha feies muito atraentes
mas era uma mulher gentil e atenciosa. Estava sempre adejando ao redor, como um
passarinho, agradando aos outros, alimentando-os, divertindo-os. Parece um
beija-flor, pensou Masao. Sempre em movimento.

Masao gostava menos do tio. Teruo Sato era alto e magro. Tinha cabelos pretos
como carvo, um rosto encovado, a boca fina e, na opinio de Masao,
uma alma mesquinha.

Havia no tio uma frieza calculista, quase uma certa crueldade, que perturbava o
rapaz. Algum tempo atrs, Masao ouvira rumores de que Teruo, decidira casar com
Sachiko
s para poder ingressar na poderosa famlia Matsumoto. Com o passar do tempo, o
pai de Masao dera ao cunha
do uma posio importante, como diretor financeiro do conglomerado, mas mesmo
assim Teruo parecia sempre insatisfeito. Era brilhante, no havia a menor dvida
quanto
a isso; mas era um brilho de que Masao desconfiava. Tinha a impresso de que o
pai se orgulhava da qualidade dos produtos que fabricava, enquanto o tio Teruo
parecia interessado apenas nos lucros.

- Posso lhes oferecer um desjejum? - perguntou Masao.

- No, obrigado. - A expresso de Teruo era de preocupao. - Infelizmente, ns
lhe trazemos pssimas notcias.

Por um instante, Masao sentiu que o corao parava.

- O que... o que aconteceu?

- Sua me e seu pai morreram num acidente

de avio ontem  noite. Acabo de receber a notcia.

Masao fitou-o na maior incredulidade, envolvido por um senso de irrealidade. Os
pais no podiam ter morrido, era impossvel! podia ser um pesadelo, e a qualquer
momento ele ia despertar. Teruo acrescentou:

- Pelo que me contaram, foi morte instantnea. No podem ter sentido qualquer
dor.

Mas Masao sentia dor agora. Sentia todo o horror e a agonia que os pais deviam ter sofrido nos momentos finais, antes de morrerem.

- Eu... - Masao sentiu que ia desfalecer. Respirou fundo, numa tentativa de
recuperar o controle. - Onde foi?

- Nas montanhas Apalaches, no leste dos Estados Unidos. Seu pai viajava para a
inaugurao de
uma nova fbrica. - Teruo passou o brao pelos ombros do sobrinho.
- Voc, sua tia Sachiko e eu partiremos para a Amrica amanh de manh. Traremos
as cinzas de seus pais para uma cerimnia fnebre apropriada aqui.

Masao acenou com a cabea, incapaz de falar.

Masao no tinha idia de quanto tempo os tios permaneceram ali, conversando com
ele. Falaram palavras de amor e conforto, mas para Masao eram apenas sons que
entravam
por um ouvido, saam pelo outro, sem qualquer significado. O pai e a me
continuavam vivos em sua mente, falando com ele, amando-o, fazendo planos para o
futuro,como sempre acontecera.

Sabe por que os nossos negcios crescem to depressa, Masao? Porque somos
melhores do que os outros. Porque nos importamos mais.

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Somos afortunados por termos nascidojaponeses. Em outros pases, os
trabalhadores fazem greves durante todo o tempo. Pensam apenas em si mesmos. No
Japo, somos todos de uma s famlia, e o que  bom para um  bom para todos.

Masao recordou a ocasio em que, aos doze anos de idade, procurara o pai para
uma conversa sria.

Pai, tenho uma idia que acho que  boa. Diga-me qual , Masao.

Sabe como uma brisa pode acionar um moinho de vento para gerar energia?

Sei.

Pois se um automvel anda a noventa ou cem quilmetros horrios, por que esse vento no pode ser usado para acionar engrenagens no motor, afim de que no precise
de tanta gasolina?

O pai escutara com a maior ateno.  uma idia muito interessante.

E depois, com extrema pacincia, explicara a Masao os princpios do coeficiente
de perda de energia e da dinmica da engenharia mecnica. A idia de Masao era
invivel,mas o pai o fizera sentir que pensara em algo brilhante.

Kunio Hidala, que era o gerente-geral de todas as fbricas Matsumoto nos Estados Unidos

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visitava Tquio na ocasio. Durante o jantar, naquela noite, o pai de Masao
relatara, orgulhoso, a idia do filho. O que fizera com que Masao se sentisse
bastante crescido.

Kunio Hidalia era um homem enorme e gentil, que sempre dispunha de tempo para
Masao e seus problemas. Trazia presentes para Masao quando vinha a Tquio; eram
presentes criativos, que estimulavam a imaginao e os sonhos do menino. Passava horas conversando com Masao so bre as operaes das Indstrias Matsumoto.

- A companhia ser sua um dia - dizia 1(unio Hidaka.  Por isso, deve aprender
tudo o que h para saber a respeito.

 No encha de idias a cabea do meu sobrinho - protestava tio Teruo. - Ele
ainda tem de terminar a escola, e  nisso que deve pensar.

O pai de Masao sorria e comentava, diplomtco:

- Ambos esto corretos. Primeiro, a escola, e depois Masao assumir seu lugar
nas Indstrias Matsumoto.

Uma tarde, pouco antes de voltar para a Amrica, Kunio Hidalia dissera a Yoneo
Matsumoto:  Voc deve levar Masao para conhecer os Estados Unidos.

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O pai de Masao balanara a cabea em concordncia.

-  o que planejo. Assim que meu filho completar dezoito anos, eu o levarei para
visit-lo... Isso acontecera um ano antes. E agora, pen
sou Masao, amargurado, estou com dezoito anos, e irei  Amrica pela primeira
vez, mas para buscar as cinzas de meus pais...

E ele chorou.

No incio da manh seguinte, Masao, tio Teruo e tia Sachiko embarcaram num dos
jatos da companhia, e quinze minutos depois o avio decolou para Nova York. Em
circunstncias
normais, Masao ficaria bastante excitado com a visita aos Estados Unidos. O pai muito lhe falara a respeito.

- H grandes cidades, fazendas enormes, edifcios imensos, ranchos, montanhas,
lagos.  como se fosse cinqenta Europas, Masao. Cada estado  como um pas,
diferente de todos os outros.

Mas agora, quando Masao finalmente seguia para a Amrica, no havia o menor
excitamento, apenas uma profunda tristeza, uma sensao de perda irremedivel.
No tinha irmos, ningum de quem fosse ntimo, com quem pudesse partilhar

seu pesar. Sabia que sua vida nunca mais seria a mesma. Olhou para a frente do
avio, onde o tio e a tia estavam sentados, e sentiu-se grato pelo apoio e
solidariedade que lhe dispensavam. Pelo menos no estava completamente sozinho.

- Por favor, ponham os cintos de segurana. Estamos chegando.

Depois que o avio pousou no Aeroporto John F. Kennedy, eles passaram pela
alfndega, e foi uma experincia incrvel para Masao.

O prdio enorme estava apinhado, com turstas em visita, americanos retornando a
seu pas. Ao redor, as pessoas falavam o que parecia ser uma lngua estranha e
misteriosa.
Foi um choque para Masao quando percebeu que falavam ingls. Estudara ingls na
escola por anos, mas no conseguia entender o que as pessoas diziam. Disparavam
as palavras como fogo de metralhadora, juntando-as como se fossem uma s. Se ao
menos falassem mais devagar..

Finalmente passaram pela alfndega e deixaram o terminal. Uma limusine da
companhia esperava junto ao meio-fio. O motorista era um homem enorme e feio,
chamado Higashi,
que

 - 21

mais parecia um campeo de luta livre. Depois que a bagagem foi guardada na mala
do carro, Teruo informou ao sobrinho:

- Vamos para o norte do estado. A companhia tem uma casa de campo  beira de um
lago, no muito longe do lugar em que ocorreu o acidente. Passaremos a noite
ali,
e amanh tomarei as providncias para recolher os restos mortais de seus pais.

Os restos mortais de seus pais. Parecia muito frio, definitivo. Masao
estremeceu.                    i Higashi levou o carro pelo labirinto de cami
nhos no vasto aeroporto e pegou a estrada para o norte. Era uma noite quente de
primavera e os campos estavam lindos. O ar noturno era suave, as rvores
pareciam mais viosas do que nunca, exibindo folhas das mais diversas cores; mas a beleza s contribua para deixar Masao ainda mais triste. Sentia que, de certa
forma,
era errado que a vida devesse continuar como se nada tivesse acontecido, que as
flores desabrochassem no meio da morte, as pessoas rissem, entoassem canes
alegres.

Um pesar profundo e sombrio dominava Masao.

Viajaram durante duas horas, por estradas nas montanhas, passando
por cidadezinhas adorme cidas, plantaes e florestas.

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Atravessaram uma pequena cidade com uma placa na entrada que dizia Bem-vindos a
Wellington e Teruo avisou:

- J estamos quase l.

Quinze minutos mais tarde chegaram a seu destino.

A casa de campo da companhia, usada para hospedar pessoas importantes, era uma
encantadora construo de quatro andares, no estilo de um chteau, no meio das
montanhas, dando para um lago enorme.

- Infelizmente, no contamos com criados aqui - disse Teruo a Masao. - Nossa vinda foi inesperada. Mas creio que poderemos nos arranjar sozinhos por um ou dois
dias, no  mesmo?

- , sim, Truo-ojisan.

Higashi levou a bagagem para a casa e conduziu Masao a seus aposentos, no
segundo andar. Era uma sute espaosa, com uma varanda da qual se podia
contemplar o lago
e toda a paisagem ao redor. No quarto, havia uma lareira grande, mveis antigos
e uma cama de aparncia confortvel.

Enquanto Masao abria as malas, Teruo, e Sachiko vieram lhe desejar boa noite.
Teruo disse:

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- Tomarei todas as providncias necessrias amanh e, no dia seguinte,
voltaremos a Tquio.
- Obrigado, Teruo-ojisan.

- Tente dormir um pouco.
- Certo, Teruo-ojisan.

Sachiko abraou o rapaz e sussurrou:

- Sua me e seu pai gostariam que voc se mostrasse um bravo.

-  o que farei - prometeu Masao. Ele tinha de ser, pelos pais.

- Se precisar de alguma coisa - acrescentou Sachilo -, nosso quarto  no final
do corredor. Mas Masao s precisava ficar sozinho, povoar

a mente com o pai e a me, reviver todos os momentos felizes com eles. Passou a
noite inteira sentado, deixando a mente vaguear pelo passado.

Estava num barco, pescando com o pai. Era um dia quente, o cu sem nuvens, uma
brisa soprava, o cheiro de maresia era inebriante e o pai contava histrias
sobre seu crescimento numafamla pobre. Eu estava determinado a ser bem-sucedido,
Masao. No me interessava por dinheiro ou sucesso por si mesmos. Queria apenas
que qualquer coisa que fizesse fosse da melhorforma que era capaz...

Estava na cozinha quente, com a me, observando-a preparar o jantar. Pediu que
ela lhe contasse de novo a histria que tanto gostava de ouvir, sobre a tempestade.
Quando voc nasceu, era um inverno gelado, e no tnhamos dinheiro para comprar
lenha.

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Uma noite houve uma terrvel tempestade de neve. Voc chorava no bero e o
cobrimos com um cobertor. Foi esfriando cada vez mais, pusemos outro cobertor e
depois um tapete. A temperatura continuou a cair efomos empilhando coisas em cima de voc, para mant-lo aquecido. Casacos, mantas, travesseiros.  um milagre que

no tenha sufocado.

Ele podia ouvir a voz suave e o riso musical da me, a voz profunda e sria do
pai, e os dois lhe fizeram companhia ao longo da noite.

Nunca mais tornaria a v-los, nunca mais poderia abra-los, mas sabia que os
pais sempre permaneceriam em sua companhia.

Quando a primeira claridade do amanhecer surgiu no cu, Sachilio entrou no
quarto de Masao. Viu que a cama no fora desfeita, mas no disse nada.

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- Preparei o desjejum para voc, Masao-chan. Masao sacudiu a cabea.

- Obrigado, Sachiko-obasan, mas no tenho fome.

- Deve comer. Precisa manter suas foras. Por favor.

- Muito bem, tentarei.

Ele desceu a escada atrs da tia, foram para a vasta sala de jantar, onde Teruo
esperava, sentado  cabeceira.

- Conseguiu dormir um pouco, sobrinho?
- Dormi, sim, senhor.

Masao no fechara os olhos durante toda a noite. Sentou-se  mesa e tia Sachiko o serviu. Para sua surpresa, ele descobriu que tinha uma fome voraz. Sentia-se culpado
por desfrutar a comida, mas no podia evitar.

- Teremos um visitante esta manh  anun
ciou Teruo.

Masao fitou-o, aturdido.

- Um visitante?

- Tadao Watanabe.

O nome era familiar para Masao e de repente ele se lembrou. O Sr. Watanabe era o
advogado particular de seu pai.

- Por que ele vem nos visitar?

- Trar uma cpia do testamento de seu pai.

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- Teruo percebeu a expresso de desagrado no rosto de Masao e acrescentou: - Sei
o que est pensando, mas no deve esquecer, Masao, que as Indstrias Matsumoto
formam um grande imprio. Algum deve assumir o comando. O testamento de seu pai nos dir quem.

- Claro.

Masao tentou compreender, mas sua mente no podia se concentrar no imprio
Matsumoto. S pensava no homem que o criara, que o fizera crescer e que tanto se
orgulhava
de suas realizaes.

Tadao Watanabe chegou s onze horas da manh. Era difcil calcular sua idade,
pois tinha uma aparncia ressequida, como se tivesse sido rnumificado h muito
tempo.
Seu comportamento era incisivo e meticuloso. Ofereceu condolncias a Masao e seus tios, e depois entrou na questo que o levara at ali - a leitura do testamento.
Os quatro foram para a biblioteca. Watanabe sentou-se por trs da mesa e os outros se acomodaram em cadeiras confortveis na frente.

Watanabe iniciou a leitura do testamento. Masao sabia que deveria prestar ateno, mas ainda se sentia atordoado demais pela inacreditvel tragdia. No se importava
com o que havia no testamento. O advogado no parava de falar, em voz montona, e
Masao descobriu que seus olhos comeavam a fechar de exausto. O advogado bateu com a palma da mo na mesa e Masao despertou, sobressaltado.

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- Ento  isso! - exclamou Watanabe. - Para resumir, as Indstrias Matsumoto, todas as suas subsidirias e todo o seu patrimnio foram deixados para Masao Matsumoto.
No caso de sua morte prematura, as Indstrias Matsumoto se tornaro propriedade de Teruo Sato.

Masao se encontrava completamente desperto agora, espantado com o que acabara de
ouvir. Um dos maiores imprios industriais do mundo agora lhe pertencia! Era
difcil acreditar. Tio Teruo,  claro, dirigiria a companhia e lhe ensinaria tudo, at
que tivesse idade suficiente para assumir o controle, Mesmo assim, a enormidade
daquilo era sufocante. Tio Teruo lhe falava, e Masao fez um esforo para se concentrar.

- Seu pai planejou tudo com a maior sabedoria, Masao. Voc continuar em sua
tradio. Enquanto isso, farei tudo o que estiver ao meu alcance para ajudar e
orientar voc.

Masao acenou com a cabea, agradecido.

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Obrigado, ojisan. Sem a sua ajuda, eu ficaria perdido.

O Sr. Watanabe levantou-se.

- Preciso voltar  cidade. Pedirei imediata mente a homologao do testamento.

Sachiko observava Masao com a maior preocupao.

Voc parece exausto - disse ela. - Por que no vai se deitar?

- Talvez seja melhor.

Masao tambm se levantou, sentindo-se tonto pela falta de sono e a tenso
emocional. Acontecera muita coisa, e muito depressa. Despediu-se do advogado e
subiu para seu quarto. Deitou-se na cama, cansado demais para tirar as roupas.

E pegou no sono quase que no mesmo instante.

Estava escuro quando Masao abriu os olhos, Desperdicei um dia inteiro, pensou
ele. Tencionara ajudar o tio a tomar as providncias necessrias, mas agora era
tarde demais. E refletiu que deveria pedir desculpas ao tio. Levantou-se, o corpo um
pouco rgido da cama, e saiu para o corredor. Comeou a descer, ainda meio
adormecido.
Voltariam para Tquio amanh. Quando os amigos

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o interrogassem sobre os Estados Unidos, s poderia lhes contar que vira um
aeroporto, uma casa e um lago. Mas algum dia, quando estivesse dirigindo as
Indstrias Matsumoto, retornaria  Amrica para uma visita apropriada, como o pai gostaria.

Masao ouviu vozes na biblioteca e seguiu para l. O tio e a tia conversavam, as
vozes alteadas. Masao j ia entrar na biblioteca quando ouviu o tio mencionar
seu nome. Parou, no querendo escutar. A tia disse alguma coisa que ele no
entendeu, e o tio protestou, em voz irada:

- No  justo! Ajudei a construir a companhia, dei anos de minha vida e mereo
ficar com tudo!

- Yoneo sempre foi muito generoso com voc, Teruo. Ele...

- Seu irmo nunca gostou de mim! Nunca! Se gostasse, no teria deixado a
companhia para Masao!

- Masao  filho dele.

- No passa de uma criana. Como pode dirigir a companhia?

- Agora no pode,  claro, mas um dia ter condies. Com sua ajuda, ele pode...

- No seja tola, Sachiko. Por que eu deveria ajudar Masao, a fim de que ele
possa me roubar a companhia? De jeito nenhum.  injusto. Nunca permitirei que isso acontea.

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- No h nada que voc possa fazer. Segundo

o testamento ...

Segundo o testamento, se Masao morrer, as Indstrias Matsumoto passam a me
pertencer.
- Mas o problema ...

- No h problema. Masao deve morrer.

asao, do lado de fora da biblioteca, ficou chocado, incapaz de acreditar no que
acabara de ouvir. A tia protestaria, mas no ousaria enfrentar o marido. Tinha pavor de Teruo. Por um momento frentico, Masao pensou em entrar na sala e confrontar
o tio. Mas depois pensou no enorme motorista, Higashi, e do tio dizendo: No contamos com criados aqui. Nossa vindafoi inesperada. Mas uma casa como aquela devia
ter criados durante o ano inteiro. Portanto, o tio cuidara para que todos se afastassem.
Devia saber com antecedncia do testamento, e planejara ficar a ss com Masao ali,  sua merc. Higashi deveria ser parte do compl. Mais parecia um assassino do
que um motorista.

Seu corao batia to alto que teve certeza de que os tios poderiam ouvir. Sem
fazer barulho, Masao se afastou da biblioteca, subiu apressado para o seu
quarto. Precisava pensar. Era a nica pessoa que se interpunha entre o tio Teruo e o
vasto imprio Matsumoto. E o tio acreditava que fora ludibriado. Masao sabia que
no era verdade. Fora seu pai quem fundara a companhia e a fizera crescer. Trouxera
o cunhado para a companhia por causa de Sachiko e sempre o tratara muito bem. E
agora...
Teruo planejava matar Masao. Segundo o testamento, se Masao morrer,, as Indstrias Matsumoto passam a me pertencer.

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Como o tio pretendia mat-lo? Tinha de parecer um acidente, ou suicdio, para
que no recasse nenhuma suspeita sobre Teruo. E o motivo para o suicdio era
bvio.
Masao podia at ouvir a voz do tio explicando  polcia: O pobre coitado ficou
to abalado com a trgica morte dos

pais que se matou.

Mas como ele planejava mat-lo? Como? Masao olhou pela janela para o lago escuro
l embaixo e subitamente descobriu a resposta. O tio ia afog-lo. Tentaria
atra-lo para o lago, sairiam num barco, e depois ele e Higashi...

Teruo dissera que retornariam ao Japo pela manh. O que significa que o
assassinato de Masao teria de ocorrer naquela noite. Ele precisava escapar, e o
mais depressa possvel. Mas para onde? A quem podia recorrer? No tinha dinheiro e no conhecia ningum nos Estados Unidos. Nem mesmo tinha mais certeza se era
capaz de falar a lngua. Recordou a cena no Aeroporto Kenedy, onde no entendera o que as pessoas diziam. Deixarei para me preocupar com isso mais tarde, decidiu
Masao.
Sua primeira providncia era sair dali e conseguir ajuda. A casa era isolada, no alto das montanhas, e ele no avistara outras residncias nas proximidades, ningum
que pudesse procurar. E foi nesse instante que Masao se lembrou da cidadezinha por onde haviam passado, na subida. O nome aflorou em sua mente:
Wellington! Devia haver uma delegacia de polcia ali. Iria at l, contaria o
que o tio planejava fazer. A polcia o protegeria.

35

Primeiro, no entanto, tinha de escapar daquela casa. Silencioso, Masao foi at a
porta do quarto, escutou. No ouviu nada. Abriu a porta. No havia ningum no
corredor.
Precisava tomar cuidado para no esbarrar com Higashi. Pensou naqueles braos
enormes e estremeceu.

Masao avanou na ponta dos ps at a escada, comeou a descer, um degrau de cada
vez, procurando no fazer qualquer barulho. Ainda podia ouvir vozes na
biblioteca.
S que agora eram trs. Teruo chamara Higashi. Masao no precisava escutar para
saber o que discutiam. Foi andando para o outro lado, na direo da cozinha. A
portano estava trancada. Um momento depois, ele se descobriu fora da casa, so e
salvo, e desatou a correr, a correr por sua vida.

Passou pelos enormes portes da propriedade, continuou a correr pela estrada que
levava  cidadezinha. Parou por um instante, atento a quaisquer sinais de alarme na casa, mas no havia nenhum. E Masao prosseguiu na direo de Wellington, pronto
a se esconder se ouvisse o som de um carro se aproximando.

36

Mas s podia ouvir os sons noturnos, grilos, sapos e gafanhotos, o sussurro do
vento nas rvores.

Masao se perguntou o que estaria acontecendo na casa. Talvez tivessem arrematado
o plano. Teriam um choque quando descobrissem que ele fora embora, ficariam
desorientados.
Masao j assistira a muitos filmes americanos, no cinema e na televiso, e sabia
como a polcia podia ser eficiente. Haveria de punir Teruo Sato.

Masao levou quase uma hora para alcanar a cidadezinha, Wellington mais parecia
uma aldeia rural. Tinha um pequeno shopping center, uma mercearia, uma
lavanderia e uma drugstore, tudo junto. Todas as lojas se achavam fechadas. Masao foi andando pela rua principal, at chegar a um pequeno prdio de alvenaria, com
uma
placa na frente que dizia Delegacia de Polcia. O corao de Masao disparou. Conseguira! Subiu apressado os degraus, abriu a porta e entrou

- 37

numa enorme sala de recepo. Tinha um cheiro de mofo. Um policial uniformizado
se achava sentado por trs de uma mesa, escrevendo.

Levantou os olhos quando o rapaz entrou.
- Boa noite, que posso fazer por voc?

As palavras saram unidas, sem qualquer significado para Masao. Ele olhou
aturdido para o guarda.

- O que deseja?

Havia um tom de impacincia na voz. Masao engoliu em seco e pediu, falando bem
devagar:
- Por favor, senhor, se pudesse falar mais devagar..

- Est bem. Qual  o seu problema?

Ele falou devagar e Masao compreendeu.
- Minha vida corre perigo.

O policial murmurou alguma coisa que soou como Voou a chama do pente, mas Masao
sabia que no podia estar certo. Observou o homem pegar o telefone e falar por
um instante. Depois de desligar, acrescentou para Masao, bem devagar:

- Siga pelo corredor, at a primeira porta  direita. O tenente falar com voc.

E, de repente, Masao compreendeu o que ele dissera antes: Vou chamar o tenente.

- Obrigado - murmurou Masao, agradecido. Ele se afastou pelo corredor. Ao
alcanar a primeira porta, bateu e entrou. Um homem d, cabelos grisalhos sentava-se a uma mesa, tornan do anotaes. Tinha o rosto enrugado, usava un terno todo

amarrotado, exibia a expresso aflita, de um homem sempre com excesso de trabalho

- Possent - disse ele, sem levantar os olhos Masao continuou de p, confuso. O
homerr, levantou os olhos.

- Voc fala ingls?

- Um pouco, senhor.

- timo - disse o tenente. - Pode sentar.

Masao sentou-se. Sabia que s poderia entender o que aqueles americanos diziam
se no falassem to depressa, dando a impresso de que todas as palavras se
uniam numa s.

Poucos momentos depois, o homem empurrou os papis para o lado e concentrou sua
Ateno no rapaz.

- Muito bem. Sou o tenente Matt Brarmigan. Qual  o seu problema, filho?

- Eu... - Masao no sabia por onde comear. Havia muito o que contar. - Houve um
acidente. E meu tio est tentando me matar.

No parecia muito certo. Ele tentou de novo.
- Meus pais morreram num acidente de avio. Herdei a companhia de meu pai. Meu
tio est querendo tir-la de mim. Precisa me matar para com seguir isso. - As palavras saam agora num fluxo rpido. - O motorista vai  ajud-lo. Planejam me afogar
e fazer com que parea suicdio. Eles...

O tenente levantou a mo,
- Espere um instante.  melhor voc comear de novo. No compreendi uma s
palavra do que disse.

Masao percebeu que enfrentava a barreira da lngua ao inverso. Forou-se a falar
devagar.

- Preciso de sua ajuda. Meu tio est tentando me matar.

- Certo. Ele o ameaou?

- No, mas ouvi quando ele falava. Planeja me afogar e fazer com que parea um
acidente.
- Ouviu-o dizer isso?

- No... no exatamente. Ele...

- Ele no disse que vai afog-lo?

- No chegou a dizer isso, mas sei que  o que planeja fazer.

Em seu exeitamento, Masao comeou a falar depressa.

- Mais devagar - pediu o tenente Brannigan.
- Vamos esclarecer tudo. Acha que seu tio planeja afog-lo, mas ele no disse
isso.

- No exatamente, senhor.

- E o que exatamente ele disse?
- Que eu devo morrer,

40

O tenente estudou-o em silncio por um momento.

- Ele disse isso a voc?

- No. Para minha tia, e depois falou com o motorista.

- O que ele disse ao motorista? Masao hesitou.

- Eu... no sei.

- No ouviu a conversa?

- No, senhor. Mas sei que falaram de meu assassinato. E foi por isso que fugi.

- De onde voc fugiu?

- Do castelo francs ao norte daqui.
- E seu tio est l agora?

- Est, sim, senhor. Com minha tia e Higashi, o motorista. No acredito que ele
seja realmente um motorista. Acho que meu tio o contratou para me matar.

- Voc acha?

- Isso mesmo, senhor.

-  uma acusao muito sria a que est fazendo.

- Eu sei, senhor. Preciso de proteo.
- Qual  a sua idade?

Masao achou que era uma pergunta muito estranha.

- Dezoito anos, senhor.

41

O policial balanou a cabea, como se essa resposta elucidasse algum mistrio.
Levantou-se e anunciou:

- Muito bem, acho que posso ajudar voc. Qual  o nome do seu tio?

- Sato... Teruo Sato.

Brarmigan escreveu alguma coisa num pedao de papel.

- Espere aqui. Voltarei num instante. Quer tomar um caf?

- No, senhor.

Masao queria apenas que aquele pesadelo terminasse. O tenente Brarmigan se
ausentou por dez minutos e declarou ao retornar:

- Pode parar de se preocupar. Tudo vai acabar bem.

Masao experimentou uma sbita e inebriante sensao de alvio.

- Muito obrigado, tenente, Se puder me arrumar uma passagem de avio para que eu
volte a Tquio, providenciarei para que seja pago assim que chegar.

- No ser necessrio - respondeu o tenente Brarmigan. - Temos um fundo de
emergncia para coisas assim.

- O que acontecer com meu tio? Ele ser preso imediatamente?

42

- Cuidaremos dele. Tem de haver um julgamento.

Masao sabia disso. Costumava assistir a Perry Mason.  A justia na Amrica era
poderosa. Masao concluiu que no tinha mais com que se preocupar. Estava seguro.

- Eu sei, senhor.

Foi nesse momento que soaram vozes no corredor. A porta foi aberta, e Teruo e
Higashi entraram na sala. Masao fitou-os, incrdulo.

- Masao! - exclamou Teruo. - Sua tia e eu ficamos muito preocupados com voc. Pensamos que lhe acontecera algo terrvel. Ele virou-se para o tenente Brannigan e
acrescentou: - Agradeo por ter me telefonado,
tenente.

O policial trara Masao! No acreditara em sua histria. Enganara-o, fingindo
estar do seu lado. Eu devia estar louco ao achar que ele acreditaria em mim, pensou Masao. Il-mo  um executivo respeitado, de uma importante companhia, e de repente
eu o acuso de tentativa de assassinato. Nem mesmo Perry Mason acreditaria em minha histria.

Tenho uma dzia desses casos de fujes por

Personagem da obra de Erle Stanley que gerou um famoso seriado de televiso.

 - 43

Sei - comentou o tenente Brarmigan. -  uma idade difcil.

Teruo balanou a cabea, com uma expresso compreensiva.

- Posso compreender. Masao est sofrendo do choque. Ele lhe falou da morte dos
pais?

O tenente Brannigan acenou com a cabea.
- Falou, sim. E me contou uma histria fantstica sobre o senhor e um motorista tentando afog-lo.

Teruo olhou para Masao, desconsolado.

- Pobre coitado... Ele precisa de um mdico. Tratarei de providenciar, o mais
depressa possvel.

Ele deu um passo na direo de Masao.

- No me toque! - Os olhos de Masao se encheram com um pnico repentino. Ele
virou-se para o tenente Brarmigan. - Por favor, tenente!

Eles vo me matar!

O policial sacudiu a cabea.

- Ningum vai mat-lo. Seu tio quer apenas cuidar de voc. Nada lhe acontecer.
Volte para sua casa.

O imenso motorista adiantou-se, pegou o brao de Masao.

- Vamos embora - ordenou Higashi. Masao fez uma ltima splica:

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Tenente, no deixe que eles me levem! Mande-me de volta para o Japo!

- E o que vamos fazer, lev-lo para o Japo e L poder receber as atenes
devidas. - Terw olhou para o tenente. - Obrigado por sua ajuda

- No foi nada. Espero que o rapaz fique bom

- Cuidaremos dele - murmurou Teruo.

Matt Brannigan observou os dois homens sarem da sala com Masao. Sentia pena do
rapaz. Parecia um bom garoto, at normal, exceto por aquela idia maluca de que
o tio queria mat-lo. Bastava olhar o Sr. Sato para se saber que era um
executivo respeitvel. Era bem provvel que o garoto fosse um viciado. Talvez
LSD, ou outra  coisa terrvel. Ele no invejava o tio do rapaz.

L fora, Teruo e Higashi levaram Masao para a limusine. A mo grande de Higashi
apertava o brao de Masao, machucando-o. No havia a menor possibilidade de
escapar agora.

- Devia se envergonhar de ter me causado tanto problema! - declarou Teruo,
furioso.

Masao foi empurrado para o banco da frente, ficou espremido entre Higashi e o
tio. Sua mente funcionava a toda. No deixaria que o matassem.

No momento em que o carro parasse, diante da casa, trataria de fugir. Podia
correr mais do que os dois. Nunca o alcanariam se...

Masao sentiu uma sbita picada no brao e baixou os olhos. O tio retirava uma
seringa.

- O que voc fez? - balbuciou Masao.

- Apliquei uma coisa para faz-lo relaxar - respondeu Teruo. - Voc no est
bem, Masao. E tenho me preocupado muito com voc. Mas muito mesmo. Sua tia e eu
conversamos a respeito. Ficamos com receio de que pudesse cometer algu
ma loucura...

As palavras pareciam vir de muito longe agora, e o rosto do tio comeou a
flutuar diante dos olhos de Masao. Sentia a cabea cada vez mais pesada. Fora
drogado.
No iam lhe dar qualquer chance de escapar. E com certeza o matariam enquanto
estivesse inconsciente.

- Vocs...

Mas a lngua parecia muito grossa, as palavras no puderam sair. Os olhos de
Masao se fecharam. E depois houve apenas a escurido.

CapItulo 3

asao despertou aos poucos, abriu os olhos. Estava num quarto estranho. A cabea
latejava de dor. No tinha a menor idia do tempo em que ficara inconsciente. Continuou deitado, imvel, fazendo um esforo para no deixar que o pnico o dominasse,
tentou recordar como chegara ali. Lembrou da conversa com o policial, o tenente Brarmigan, e do aparecimento do tio e de Higashi, que o levaram para o carro. E
lembrou tambm que fora drogado.

Sentou-se na pequena cama e sentiu-se completamente tonto. Esperou que a cabea
desanuviasse. Levantou-se com o maior cuidado, olhou ao redor, examinando o
quarto.
No havia janelas, e pela inclinao do teto Masao compreendeu que se encontrava
no sto da casa. Foi at a pesada porta de carvalho, experimentou a maaneta. A
porta se achava trancada por fora. No havia como sair. Masao percebeu que
vestia apenas a cueca e uma camiseta. Haviam tirado o resto das roupas.

Para que eu no possa ir a parte alguma, pensou. E depois descobriu o verdadeiro
motivo, um sbito calafrio lhe percorreu o corpo. Era bem provvel que as roupas
estivessem  beira do lago, onde a polcia as encontraria, junto com um bilhete
forjado de suicdio. Teruo no deixa ria nada ao acaso. Meu pobre sobrinho no su portou a perda dos pais, e por isso...

Os pensamentos de Masao, foram interrompi dos por um som no outro lado da porta.
Algun se aproximava. Devia ser Higashi, e Masao com. preendeu que no teria a
Menor chance diantE daquele homem grande e forte. Tornou a olhar ao redor,  procura  de uma arma, algo com que se defender, mas no havia nada. Perguntou-se o
quanto Teruo estaria pagando ao motorista para que o matasse. Uma fortuna, provavelmente. Mas no representaria coisa alguma para Teruo. Com Masao morto, Teruo
entraria na posse de uma riqueza incalculvel. Os passos chegaram mais perto. Masao ouviu uma chave girar na fechadura, viu a porta ser aberta. Higashi entrou,
o corpo imenso bloqueando a porta. Por um momento, Masao pensou em atac-lo, mas o motorista era muito maior, devia pesar pelo menos uns quarenta quilos a mais
que ele.

- Vamos dar um pequeno passeio de barco resmungou Higashi.

Portanto, ele estava certo! Calculara com preciso o que o tio planejava fazer.
Iriam jog-lo no meio do lago profundo. Talvez nunca descobrissem o corpo.
Higashi avanou, segurou-o pelo brao, apertou com fora, como se fosse um torno.

 51

- Vamos logo.

Higashi levou o rapaz para o corredor deserto. Estavam no quarto andar. Os dedos
de Higashi eram como ao, comprimindo o brao de Masao, machucando-o.

- Se me deixar escapar, eu lhe pagarei mais do que meu tio - disse Masao,
desesperado. - Quando voltar a Tquio...

- Cale-se! -Posso...

Higashi apertou o brao ainda mais, empurrou o rapaz pela escada abaixo, na sua frente. Chegaram ao terceiro andar. Alm da varanda, Masao podia avistar o lago
l embaixo. De repente, adquirira uma aparncia maligna e sinistra. Dentro de poucos minutos, Masao seria parte daquele lago, afogado, o corpo perdido para sempre.
No podia permitir que isso acontecesse!
Os galhos de um pinheiro alto e gracioso se projetavam sobre a varanda. Ao
perceber isso, Masao sentiu uma esperana repentina. Havia uma possibilidade.
Era mnima, uma tentativa desesperada, mas era tudo o que lhe restava. Se falhasse,
morreria. Mas ia morrer de qualquer maneira. O corao de Masao comeou a bater
mais depressa.
Esperou at ficarem em frente  janela, e nesse instante fingiu tropear. Ao
cair,

52

Higashi, numa reao automtica, inclinoupara peg-lo. Por um momento, Higash
ficou di sequilibrado, e Masao, aproveitou para empurra-lo, com toda a sua fora,
conseguindo se desvencilhar Levantou-se no instante seguinte e correu para a
varanda. Olhou para o cho l embaixo constatou que a altura era de pelo menos
quinze metros. Se casse, a morte seria instantnea. Mas no tinha opo. A rvore era o nico caminho para alcanar a segurana. Estendeu as mos par o galho do

pinheiro.
Os dedos comearam a es corregar, mas logo conseguiu segurar com firme za e
balanou na direo do tronco. Foi ento que sentiu alguma coisa agarrar sua
perna. Virou a cabea e descobriu que era Higashi, puxando-( para trs. Masao se debateu, mas era intil. O brao musculoso de Higashi envolveu seu pesco. o, sufocando-o.

Masao, conseguiu se contorcer escapou, com a maior dificuldade para respirar
O motorista tornou a avanar, o rosto dominado pela fria.

- Vou matar voc aqui mesmo! - sibilou Higashi.

Ele estendeu os braos para envolver Masao, esmag-lo. Masao tratou de se
esquivar. Sabia que aqueles braos eram, bastante poderosos para partir-lhe a
espinha.
Desviou-se devagar para a direita, afastando-se da rvore. Quando Higashi j quase o alcanava, Masao virou-se subitamente para a direo oposta, saltou por cima
da grade, tornou a agarrar o galho. Foi em vo. Higashi segurou-o no instante seguinte, como um desvairado, puxando-o para trs. Masao podia sentir que comeava
a afrouxar as mos no galho. O fim se aproximava. Higashi tambm sentiu isso. A vitria era sua. Mas, em sua ansiedade de acabar logo com aquilo, Higashi subiu
na grade, ao lado de Masao, para ter um ponto de apoio melhor. A grade no suportou o peso adicional do motorista e se partiu, de forma inesperada. Masao, segurando-se
desesperado no galho do pinheiro, observou horrorizado o corpo de Higashi despencar pela altura de quinze metros.
Higashi ainda soltou um grito estridente, depois o corpo bateu no cho, ficou
imvel, a cabea torcida num ngulo anormal.

Masao continuou l em cima, agarrado ao galho, respirando fundo, para se
acalmar. No havia mais grade para apoiar os ps. No havia mais nada agora
entre ele e a terra l embaixo. Se as mos escapulissem, morreria como Higashi. Bem devagar, Masao comeou a descer pelo pinheiro, passando de um galho para outro
com a maior cautela. O instinto clamava para que se apressasse. O tio devia ter ouvido o grito de Higash e podia aparecer a qualquer segundo. Pendurado na rvore,
Masao seria um alvo impotente.  ele se obrigou a descer devagar, testando cada galho antes de se apoiar. Depois do que parece uma eternidade, o cho ficou bem prximo
e el pulou. Permaneceu deitado onde caiu, incapaz de se mexer, tentando recuperar o flego. Sentindo dor em cada msculo do corpo.
Sua vontade era continuar ali para sempre, descansando no cho frio, mas sabia
que tinha de escapar, e depressa Mas para onde? No havia qualquer lugar par onde pudesse ir. No podia procurar de novo o tenente Brannigan. Ele tornaria a telefonar
e o tio iria busc-lo; e agorahavia um homem morto. Poderiam at culp-lo por isso. Masao, levantou-se, no escuro, apenas de cueca e camiseta, tentou pensar no
que fazer. No tinha dinheiro,nem roupas, e sua vida corria perigo. Viu uma luz se acender no alto da casa, virou-se e saiu correndo s cegas pela estrada.

A lua era cheia, e Masao aproveitou a claridade para se manter na beira da
estrada. Especulou sobre o que estaria acontecendo na casa. Teruo j teria
descoberto o corpo de Higashi? J estaria procurando pelo sobrinho? Como em resposta a seus pensamentos, ele ouviu um carro se aproximando. Meteu-se atrs das moitas,
fora de vista. Um momento depois, a limusine familiar apareceu na curva, avanando devagar. Teruo estava ao volante, os olhosesquadrinhando os dois lados da estrada.
Masao agachou-se ainda mais por trs das moitas, esperou que a limusine passasse. Quando no mais ouvia o barulho do motor, saiu de seu esconderijo e recomeou
a descer a estrada. Dez minutos mais tarde, ouviu a limusine se aproximando outra vez e tratou de se esconder atrs das
moitas.
Observou o tio passar de volta  casa. Talvez pensasse que Masao ainda se
encontrava escondido em algum lugar da propriedade.
O rapaz acelerou os passos.

Ao alcanar Wellington, Masao contornou a cidadezinha, para que ningum o visse.
No cometeria de novo o erro de ir  delegacia de polcia. E se perguntou, pela
centsima vez, para onde poderia ir. Estava pior do que perdido; no tinha
destino.

A luta com Higashi o esgotara, e precisava desesperadamente descansar. Mas sabia
que tinha de continuar andando. Se parasse, poderia ser apanhado, e isso
acarretaria sua morte. Assim, forou-se a continuar ao longo da noite, dando um passo de cada vez. A cada passo, distanciava-se mais e mais do tio, mais e
mais do perigo A chama ardente que mantinha Masao em movimento era a raiva intensa contra Teruo. O tio no tinha o menor interesse em providenciar que os pais de
Masao recebessem um funeral apropriado. Sua nica preocupao era se apos, sar do imprio que por direito pertencia ao so. brinho. Mas Masao estava determinado
a cuidar para que os pais tivessem um funeral condigno, De alguma forma, levaria suas
cinzas para o Japo. E ningum poderia impedi-lo, nem Teruo, nem qualquer outra
pessoa.
No sabia ainda como o faria; s tinha certeza de que faria isso, ou morreria tentando.

O ar noturno era frio, e Masao comeou a tremer. No havia qualquer lugar em que
pudesse obter roupas, nenhum jeito de se manter aquecido. Passou por casas de
fazendas s escuras e pensou com inveja nas pessoas l dentro, aconchegadas e seguras.
Especulou por quanto tempo mais seria capaz de continuar. O futuro parecia
desolador.
Mesmo que encontrasse uma pessoa a quem pudesse contar sua histria, seria sua
palavra contra a do tio, e ele era apenas um rapaz, enquanto Teruo era um homem de posio e importncia.

O tio tinha - como era mesmo que os americanos gostavam de dizer? influncia. O
tenente Brannigan no acreditara em Masao. Ningum mais acreditaria. Ele sentia-
se acuado num pesadelo, do qual no havia escapatria.

No incio da manh seguinte, Masao descobriuse nos arredores de outra
cidadezinha. A rua principal estava apinhada, as pessoas reunidas num grupo. Por um momento terrvel, Masao pensou que o procuravam, esperavam ali para peg-lo.
Mas todos conversavam e riam; o clima era de feriado. Perplexo, Masao foi para o lado da estrada, fora de vista, num ponto de onde poderia observar o que acontecia.

Havia pelo menos duas dzias de homens no meio da rua, vestindo shorts e
camisetas, enquanto outras pessoas, completamente vestidas, postavam-se nos
lados. Masao no podia entender do que se tratava. Um homem circulava pelo meio da multido, pondo pedaos de papelo com nmeros nas costas dos homens de short.
E, de repente, Masao percebeu o que era. Uma maratona! Por um instante, pensou em se juntar ao grupo. Vestia-se como os outros,  seria um disfarcE perfeito. Mas
sabia que se achava cansado demais, esgotado fsica e emocionalmente. Caminhara a noite inteira, no tinha mais foras. Decidiu esperar que os maratonistas partissem,
e depois continuaria.

Mas nesse instante ocorreu algo que fez Masao mudar de idia. Avistou a limusine do tio se aproximando pela estrada. Portanto, Masao ainda no conseguira escapar!
A busca se tornara mais prxima, poderia ser descoberto a qualquer minuto. Masao
apressou-se em ir para o meio dos homens de short e camiseta. O homem que distribua os nmeros olhou para Masao e disse:

- Voc quase perdeu. Estamos prontos para a partida.

Um nmero foi grudado nas costas de Masao. Os corredores assumiram posio,
preparados para o tiro de partida, Masao deslocou-se para o meio do grupo, onde
ficaria oculto. No tinha a menor inteno de participar da corrida. S queria se perder
no meio da multido, at que o tio fosse embora. Mas no momento em que o juiz de
partida ergueu a arma, a fim de disparar para o ar o tiro que daria o sinal para
o incio da corrida, Masao percebeu que a limusine preta se aproximava do grupo. O estampido soou nesse instante e Masao se descobriu a correr,
junto com os outros, permanecendo sempre no meio do bolo, para que o tio no o
visse. Quando a limusine passou pelo grupo de corredores, Masao baixou a cabea. O tio
afastou-se devagar. Masao sentiase exausto da longa noite, mas teve medo de
deixar  a corrida agora, pois a qualquer momento Teruo poderia voltar. Sua nica
segurana era usar os outros corredores como uma camufla
gem. E, por isso, Masao resignou-se  longa corrida pela frente. Dava passadas
compridas e, porque era jovem, com um corpo forte, logo se ajustou ao ritmo da
corrida.
Comeou a examinar os corredores ao redor. Alguns eram mais velhos, outros
pareciam ser da sua idade. Masao especulou sobre a corrida, se era realizada
todos os  anos, qual o seu propsito e o que aconteceria ao final. Sabia que nenhuma
dessas coisas era importante. S importava que estaria seguro enquanto fosse um
dos corredores.

Os outros lhe proporcionavam cobertura.

Ele comeou a usar o segundo flego e passou a sentir que as pernas adquiriam
mais fora. Corria um pouco mais depressa agora, e foi ultrapassando outros corredores. No
tinha certeza do ritmo que deveria imprimir, pois no sal: qual era a distncia
da corrida; podia ser cinco ou dez quilmetros. Decidiu que deixaria para se preocupar com esse problema mais tarde Afoito, aumentou ainda mais a velocidade e deixou
outro grupo de corredores para trs. Comi ava a experimentar a exultao da brisa fresca e  da manh em seu rosto, dos movimentos fcei do corpo. Ergueu os olhos
e
constatou que havi apenas meia dzia de corredores  sua frenu Tornou a acelerar, e logo s havia cinco  frente depois quatro... trs... e Masao emparelhou con
os dois
corredores na dianteira. Eles aumentaram o ritmo e Masao, fez um esforo para acompa. nh-los. O corao batia forte, os pulmes ardiam No tinha certeza se poderia
continuar. No havia nenhum motivo para que ganhasse aquela corrida, nada significava para ele. E, no entanto, sabia que tinha de continuar. Era uma questo de
orgulho. J que entrara na corrida, tinha de venc-la. No seria o segundo melhor. E, por isso, Masao passou a correr ainda mais depressa, e no demorou muito a
ficar em primeiro, os braos e pernas funcionando como pistes. Contornou uma curva da estrada, e logo  frente havia uma cidadezinha, com uma faixa estendida por
cima da rua, dizendo: Linha de Chegada

- MARATONA ANUAL.

Masao, sentiu que os outros dois corredores vinham logo atrs, e, numa exploso
final de velocidade, cruzou a linha de chegada em primeiro. Descobriu-se cercado
no instante seguinte, as pessoas no maior excitamento. Apertavam sua mo, davam
parabns, falavam to depressa que no dava para entender o que diziam.

- Olhe para c! - gritou uma voz.

Masao levantou a cabea e deparou com um cinegrafista de televiso a film-lo. A
cena tinha a irrealidade de um sonho. As pessoas davam tapinhas em suas costas,
faziam questo de toc-lo.

- Voc deveria participar das Olimpadas...
- Aposto que quebrou algum recorde...

- Mora por aqui ... ?

Tratavam-no como se ele fosse alguma espcie de heri. Aparentemente, a corrida
era muito importante para aquelas pessoas. Pois fora importante para ele tambm,
pois talvez tivesse salvado sua vida. S gostaria agora que todos falassem mais
devagar, a fim de que pudesse entender. Um homem de boa aparncia aproximou-se
de Masao, ergueu a mo bem alto e gritou:

62

Senhoras e senhores, silncio, por favor!
O barulho da multido foi diminuindo aos poucos, e logo o homem continuou:

- Este  um grande dia para todos ns. Noss;a cidade foi homenageada com sua
participao no Programa Presidencial de Preparo Fsico. Este  o terceiro ano
em que temos o privilgio de participar deste evento meritrio e esplndido. Nossos
jovens hoje...

O homem devia ser o prefeito da cidadezinha, concluiu Masao, aproveitando o
momento ao sol e a audincia cativa. Masao no tinha a menor idia do que o homem dizia, e ficou parado ali, em silncio, polido, esperando que ele acabasse para
poder ir embora.

Mas houve uma surpresa. Ao encerrar o discurso, o homem virou-se para Masao e
declarou:
- E agora, em nome dos habitantes de nossa cidade, tenho prazer em presente-lo com este cheque, para comemorar sua gloriosa vitria hoje. E ele entregou a Masao
um cheque de cem dlares. Era uma ddiva dos cus.

- Obrigado balbuciou Masao. - Eu... eu... Masao no conseguiu lembrar a palavra
agradeo, e arrematou de outra forma:

- Eu estou muito satisfeito.

Houve aplausos da multido, e as pessoas comearam a se afastar. Masao olhou para o cheque. A primeira coisa a fazer agora era comprar roupas. Virou-se para um
rapaz louro, mais ou menos da sua idade, que vestia um jeans e uma camisa de cores fortes. Masao levantou o cheque e falou, bem devagar:

- Com licena. Pode me dizer onde posso... Ele parou, incapaz de se lembrar da
palavra descontar. Censurou-se por um instante por no se concentrar mais nas
aulas de ingls. Mas Masao teve sorte. O rapaz compreendeu.

- Quer descontar o cheque? H um banco bem na esquina. Venha comigo. Eu o
levarei at l.  muito gentil.

Voc  novo aqui, no ? - indagou o rapaz louro, enquanto atravessavam a rua.

- Sim.

- De onde voc ?

- Tquio.

- Ei, que bacana! Meu nome  Jim Dale. Qual

 o seu?

- Masao... - Ele hesitou. - Masao Harada,

- Prazer em conhec-lo, Masao.

Chegaram ao banco. Masao se lembrou de repente que no tinha nenhum documento de identidade. Talvez no quisessem descontar o cheque. Possua o resgate de um rei

que agora lhe pertencia, em bancos no mundo inteiro, mas no podi tocar em nada. E no tinha qualquer dinheiro Aquele cheque de cem dlares era tudo com qu, podia
contar.

- Entrarei com voc - props Jim Dale.

O rapaz louro parecia se deleitar com a glria de seu novo amigo. Entraram
juntos no banco Jim Dale levou Masao, a um guich e disse  caixa que estava
ali:

Oi, Srta. Perkins. Meu amigo quer descontar um cheque.

A caixa olhou para Masao e sorriu.
- Ah, voc  o rapz ganh acorrida.

Masao ftou-a, aturdido. O problema da lngua outra vez!

- Como... como disse?

A mulher repetiu:

- Voc rap ganh acorrida.

Subitamente, Masao compreendeu: Voc  o rapaz que ganhou a corrida. Ele acenou
com a cabea.

- Sim, madame.

A caixa pegou o cheque, contou cinco notas de vinte dlares. Estendeu-as pelo
guich para Masao.

- Aqui est. Cem dlares.

Ele pegou o dinheiro, agradecido.

65

- Obrigado.

Daria para comprar roupas e comida. Masao virou-se para Jim Dale.

- Preciso comprar roupas. Sabe onde... Jim acenou com a cabea.

- No tem problema. Venha comigo.

Poucos minutos depois, Masao e seu amigo entraram numa loja de departamentos.

- Esta  a nossa maior loja - anunciou Jim Dale, orgulhoso.

-  muito bonita - comentou Masao, polido. Era pequena, em comparao com as
imensas lojas de departamentos do Japo que Masao conhecia, mas serviria a seu
propsito.
Jim levou-o ao departamento de roupas, onde havia uma variedade de ternos, jeans
e camisas. Masao escolheu umjeans e uma camisa esporte, foi experimentar. No se
ajustavam com perfeio, mas dava para vestir. Pelo menos tinha o que usar.
- Vou levar - disse Masao ao vendedor.

O problema seguinte era comida.

- H alguma pizzaria na cidade? - perguntou ele a Jim Dale.

Jim ficou surpreso.
- Uma o qu?

Masao pensou que no devia ter pronunciado o nome direito. Repetiu-o, mais
devagar:


- Uma pizzaria.

O rapaz louro ficou vermelho.

- Claro. Temos uma excelente pizzaria. Luigis Apenas pensei que vocs... No
come comida ja. ponesa?

Masao riu.

- Durante todo o tempo. Mas tambm gosto de hambrguer, cachorro-quente e pizza.

- Grande, cara! Venha comigo.

O Luigi's estava repleto de estudantes secundrios, falando alto, rindo,
desfrutando a companhia dos colegas. Deixou Masao com saudade de casa. Era um
estranho numa
terra estranha, sem ningum com quem pudesse conversar. Jim Dale observava-o,
curioso.

- Algum problema? Masao forou um sorriso.

- No. Est tudo bem. O cheiro das pizzas  delicioso.

E tambm tinham um gosto sensacional. Todas as trs.

Voc no  de brincadeira - comentou o rapaz louro.

- No entendi.

67

- Tem um tremendo apetite. Acho que correr  que lhe d tanta fome.

A palavra correr trouxe Masao de volta  realidade. Esquecera seus problemas por um momento, mas tudo voltou de repente.
Quando deixassem o restaurante, Jim iria para casa, ao encontro de sua famlia, onde estaria protegido e seguro. Mas no havia lugar em que Masao pudesse fi
car seguro. Tinha de continuar a correr. Quanto maior a distncia da casa, da companhia e do tio,      1 melhor. E aquele lugar era perigoso, uma cidade pequena,
onde sobressaa, como um estrangeiro. Precisava ir para uma cidade grande, onde se perderia na multido.

- A cidade de Nova York  muito longe? - perguntou Masao.

-        Fica a apenas duas horas de trem daqui. -
-        
-        Jim Dale olhou para seu relgio. - Um trem deve partir dentro de vinte minutos. Masao embarcaria nesse trem.



Foi Sachiko quem assistiu por acaso ao noticirio da televiso, s seis horas da
tarde, em que Masao aparecia como o venF

cedor da corrida. Chamou o marido, e os dois ficaram olhando para Masao na tela.
Teruo lembrou que passara pelos corredores naquela manh. E Masao se escondera
no meio deles! Teruo, estivera bem prximo de descobri-lo. Nunca imaginara que o sobrinho conseguiria se esquivar por tanto tempo. Afinal, o rapaz fugira sem roupas
e sem dinheiro. No tinha amigos, nenhum lugar para onde pudesse ir. Era apenas uma questo de tempo at encontr-lo. Mas Teruo, no tinha tempo a perder. Precisava
se livrar de Masao o mais depressa possvel. Era a hora de recrutar ajuda.

Havia um detetive particular de quem Teruo ouvira falar. Um profissional hbil e
calejado, chamado Sam Collins, que fazia qualquer coisa por dinheiro. Possua a
reputao de ser implacvel e obter resultados. Era uma combinao que atraa
Teruo. Ele pegou o telefone e discou o nmero do detetive Sam Collins.

Masao pensara que se sentiria perdido em Manhattan, mas de certa forma, de uma
estranha maneira, tudo lhe parecia familiar. Os prdios em mes, o barulho, as multides, o trfego, tudo lembrava Tquio. Alm disso, como vira muit filmes americanos,
Masao reconheceu o Rad City Music Hall, o Empire State Building e Rockefeller Center.
Comeou a relaxar, pela pi meira vez desde que fugira do tio. No havia menor
Possibilidade de algum conseguir encontr-lo naquela vasta cidade. Perdia-se por completo no meio da multido, nos enxames de pessoas correndo para o trabalho,
ao encontro de amigos, para pegar um trem. Masao andou pela Broadwa contemplando os imensos anncios luminosos as vitrines das lojas. Espantou-se com a quanti dade
de produtos japoneses vendidos ali - rdio,, transistorizados, cmeras, aparelhos de TV, gravadores. E muitos eram fabricados pelas Indstrias Matsumoto. O que
deixou
Masao com um senso de orgulho. E um senso de medo.

Escutava as pessoas falando ao seu redor, e todas pareciam se manifestar em
lnguas diferentes. Ouvira dizer que a Amrica se tornara o cadinho do mundo e
era verdade.
As pessoas vinham para c dos cantos mais distantes da Terra, trazendo sua
herana, sua cultura, sua lngua. Havia cartazes nas vitrines em espanhol,
francs, alemo e japons.

 - 73

Comeava a escurecer. Ele precisaria de um abrigo para a noite. Entrou num vo
de porta e contou seu dinheiro. Ainda tinha setenta dlares.

No sabia quanto custaria um quarto de hotel, mas compreendia que devia ser
cauteloso com o dinheiro. Arrumaria um emprego, at formular um plano e
determinar a quem poderia pedir ajuda. Pensou em Kunio Hidaka, que dirigia as Indstrias Matsumoto na Amrica. A sede da com panhia era em Los Angeles, Califrnia,
a cinco mil quilmetros de distncia, no outro lado do pas. Masao teria de encontrar um meio de chegar l. O Sr. Hidaka era um amigo. Acreditaria nele e o ajudaria.
Amava o pai de Masao, sempre fora leal  famlia Matsumoto. E Masao sentiu-se melhor s de pensar em Kunio Hidaka. Permaneceria em Nova York at ganhar dinheiro
suficiente para a viagem  Califrnia. No deveria ser difcil
conseguir um emprego, porque ele se encontrava disposto a fazer qualquer coisa - lavar pratos, entregar coisas, fazer faxina. O importante, naquele momento, era
continuar vivo. E cada dia que passasse faria com que se sentisse mais seguro. Muito em breve, o tio desistiria da perseguio, achando a procura intil.

74

Teruo Sato no era, porm, um homem que acE tasse a derrota. Planejara cada
movimento com a meticulosa determinao de um mestre do xadrez, e no pretendia
perder o jogo agora. Te, uma reunio com Sam Collins. O detetive part cular
correspondia s expectativas de Teruo. T nha ombros largos, olhos pequenos e
irrequiE tos, o rosto amassado de um ex-pugilista, um a de tenacidade. Uma orelha ficara mutilada para sempre, e o nariz se quebrara tantas vezes qui os mdicos
acabaram desistindo de consert-lo

- Voc foi muito bem recomendado - disso I

Teruo. Preciso de algum que seja discreto.

-  assim que continuo neste negcio. Fazendo: o meu trabalho e ficando de boca
fechada.

- Excelente! Quero que descubra um rapaz para mim. Meu sobrinho. Ele sofreu um
colapso nervoso. Quero que o encontre e o traga de volta para c.

- Por que ele fugiu?
- No  da sua conta.

- Apenas pensei que poderia ajudar se soubesse...

- Fornecerei uma fotografia. Ele no tem amigos, nem dinheiro. No deve estar
longe daqui.
- No deve ser muito difcil localizar um garoto japons andando pelas ruas.

Teruo estudou Sam Collins Por um momento.

- Seria um erro de sua parte subestimar a inteligncia do rapaz. Ele tentar se
esconder.

- Pode demorar um pouco. Se ele...

- No. Quero que o descubra o mais depressa Possvel. Pagarei seus honorrios em
dobro, mais uma gratificao de cinqenta mil dlares quando o trouxer para c.

O detetive engoliu em seco.

- Cinqenta mil?

- Isso mesmo. H mais uma coisa que deve saber. Meu sobrinho j assassinou um
homem. Se tiver de mat-lo em legtima defesa... - Teruo fez uma pausa. - ---
ningum poder culp-lo. E mesmo assim ganhar a gratificao.

Uma expresso pensativa surgiu no rosto de Sam Collins.

- Quero mil dlares adiantados.

- No tem problema. 86 quero que o encontre.
- Confie em mim,

Mas Teruo no confiava em ningum. No podia se dar ao luxo de correr qualquer
risco. Depois que o detetive particular se retirou, Teruo Sato fechou os olhos e
sentou-se
imvel, planejando seu Prximo movimento. Imaginou-se no lugar do sobrinho. Para
onde iria se fosse Masao? Onde tentaria se esconder? Em Manhattan, com sua populao de dez milhes de pessoas. Era o lugar que o rapaz escolheria. Um
detetive particular mesmo esperto, provavelmente no conseguiria descobri-lo. Ou
pelo menos no com a rapidez necessria. Portanto, tinha de haver outro meio Seguro. E Teruo, como era um mestre do xadrez pensou a respeito e sorriu. Era um excelente
plano, simples e infalvel.
Masao seria apanhado em poucas horas.

Manhattan  noite era um lugar fascinante. Cintilava com milhes de luzes.
Havia luzes dos prdios e cartazes, de vitrines iluminadas, os faris, de milhares de carros.

Masao admirou os patinadores no Rockefeller Center, passeou pela rea dos
teatros, onde eram apresentados os maiores shows da Broadway. Passou pelo
Sardis, o famoso restaurante teatral, onde jantavam os principais artistas do palco, parou diante da biblioteca pblica, a maior do mundo, contemplou os enormes
lees de pedra.
Maravilhou-se com as vitrines das mais lindas lojas da Quinta Avenida, Lord & Taylor, BergdorfGoodman, Saks, viu vestidos que o lembraram de sua me. Pensou no
quanto ela teria gostado de uma coisa ou outra.
Mas a me se fora para sempre, seu pai tambm. E Masao experimentou uma profunda e terrvel sensao de perda. Tinha de permanecer vivo, no apenas por si mesmo,
mas tambm pelos pais.

Sentiu uma fome sbita e compreendeu que h muito j passara a hora do jantar.
Teve a impresso, percorrendo a Stima Avenida, de que havia centenas de
Restaurantes para escolher. Entrou no McDonald's familiar, com sua arcada dourada. Era como estar de volta a Tquio.

- Quero um hambrguer, por favor.
- Como vai querer?

No era como estar de volta a Tquio. Ele olhou aturdido para a garonete.

- Como disse?

- Como vai querer? Mal passado ao ponto bem passado?

Masao no tinha a menor idia do que a moa dizia. Olhou para um garoto ao seu
lado, que comia um hambrguer.

- Eu... quero um igual, por favor.

- Certo. - A garonete virou-se e gritou para a cozinha: - Um hambrguer,
mal passado.

Ah, ela perguntara como ele queria que o hambrguer fosse.

- Fritas?

Masao ficou confuso outra vez. O que era fritas?
70

Um prato de batatas fritas foi posto na frent do garoto, e Masao aproveitou a
oportunidade. Fritas - disse ele.

Descobriu que o palpite fora certo. Pediu ot tro sanduche, mais batatas fritas
e arrematou, jantar com um milkshake de chocolate.

Com licena - disse ele  garonete. - Estou procurando um hotel. Um lugar
barato. Pode me sugerir algum?

H uma poro aqui... Masao interrompeu-a.

1 - Desculpe, mas pode falar mais devagar, por favor?

- Claro. H uma poro por aqui, mas alguns so meio perigosos  noite. Seria
melhor se fosse para o East Side.

- Muito obrigado.

Masao saiu e foi andando para o East Side. Observou que havia nibus passando
por todas as ruas, mas preferia caminhar. Havia muita coisa para ver. O fascnio
pela cidade quase o fez esquecer o perigo que corria. Levaria anos para conhecer
realmente toda a cidade de Nova York, pensou Masao. Amanh procurarei um
emprego. Muito em breve Teruo me esquecer. E poderei ento entrar em ao. Encontrarei um meio de derrot-lo.

79

Ele passou por um hotel de aparncia razovel, perto da Lexington Avenue, e
decidiu que serviria. Havia milhares de hotis em Nova York.

O tio no poderia investigar todos. Ficaria seguro ali. O saguo estava quase
vazio. O recepcionista era japons, e por um instante Masao pensou em ir embora.
E se Teruo usasse uma rede de japoneses para localiz-lo? Era bem provvel que
houvesse uma colnia unida em Nova York, com a maior facilidade para a troca de
informaes.
Estou sendo paranico, concluiu Masao. Nem todos podem ser inimigos. Ele se
aproximou da recepo.

- Eu gostaria de ter um quarto para a noite, por favor.

Masao falou em japons e o recepcionista respondeu na mesma lngua. Foi s ento
que Masao compreendeu o quanto sentira falta de sua lngua. O japons era uma
lngua to civilizada, to fcil de compreender! Masao registrou-se sob um nome falso

- Por que assumir qualquer risco? e foi conduzido ao quarto.

Era pequeno, apertado, mas limpo e barato. Masao deitou, pensando nos
acontecimentos dos ltimos dias. O acidente de avio que matara seus pais, a
viagem para a Amrica, as coisas terrveis que ocorreram na casa  beira do lago, culminando com a morte do motorista, Higashi. Masao pensou na maneira como
escapara, apenas de cueca e camiseta, pensou na corrida, no prmio por sua
vitria. Tivera sorte at agora. Mas se perguntou por quanto tempo mais poderia contar com a sorte. E adormeceu.

Foi despertado pelo sol brilhando atravs da janela, abriu os olhos, sentindo-se
revigorado e descansado. Olhou para o relgio de pulso. Onze horas da manh.
Dormira por quase doze horas! Lavou-se no pequeno banheiro no fim do corredor, vestiu as mesmas roupas que usara no dia anterior. Eram tudo o que tinha. Assim que

obtivesse um emprego, compraria mais roupas. Agora, porm, tinha de pensar em comer.

Masao decidiu que seria um grande desjejum, ao estilo americano. Suco de
laranja, ovos com bacon, panquecas. Na noite anterior, notara uma lanchonete a dois quarteires  do hotel. Seguiu para l. Talvez lhe dessem um emprego de balconsta.

Chegou  esquina, ficou esperando que o sinal de trnsito mudasse. Um caminho
parou ao lado da banca de jornais na esquina e um homem na traseira jogou uma pilha de jornais vespertinos na calada. O sinal mudou para verde e os pedestres comearam
a atravessar a rua. Mas Masao permaneceu
paralisado na esquina. Na primeira pgina do jornal havia a sua fotografia. A manchete
dizia: POUCIA PROCURA RAPAZ QUE ASSASSINOU MOTORISTA.

Teruo Sato tomara a iniciativa. de um instante para outro, todos se tornaram inimigos.

Masao experimentou a sensao de que se encontrava sob a luz dos refletores, completamente nu. No era mais uma figura annima, perdido numa multido de estranhos.
Tornara-se um alvo, o objetivo de uma caada policial. Estranhos pareciam fit-lo com a maior ateno, comparando seu rosto com o retrato na primeira pgina do
jornal. Masao ainda estava tonto do choque da palavra assassinou. A morte de Higashi fora um acidente. Teruo sabia disso, mas distorcera os fatos para montar sua
armadilha.
Masao podia ser julgado, condenado  priso pelo resto de sua vida, talvez mesmo executado.
E, assim, no haveria como impedir que Teruo se apossasse da companhia.

Um guarda uniformizado se aproximava, e Masao tratou de se virar. As ruas no
eram mais seguras para ele. Seria fcil reconhecer seu rosto, entre todos aqueles brancos.
Existia um bairro japons em Nova York. O primeiro impulso de Masao foi
descobrir onde ficava e ir para l, sumindo entre os outros rostos japoneses. Mas hesitou. Era bem provvel que fosse o primeiro lugar em que a polcia o procuraria.

Haveria detetives por l, com a sua foto, revistando as ruas, hotis, restaurantes. No, no seria seguro. Nenhum li gar era seguro. Nem mesmo ousava
voltar ao hotel em que passara a noite.

O guarda j passara por ele, mas parou, olho em sua direo. Masao afastou-se,
andando
devagar, o crebro em disparada, tentando determinar o que fazer. A situao
parecia desesperadora Sua vida corria perigo. Todos o procuravam. Se a polcia
no o prendesse, Teruo o pegaria. a rede das Indstrias Matsumoto era vasta.
Exer
cia uma influncia poderosa, e Teruo usaria essa influncia para destru-lo. E,
de repente, Masao teve uma idia. Havia um lugar em que ningun pensaria em
procur-lo.
Nem mesmo Teruo. Pela primeira vez, Masao comeou a sentir um raio de esperana.

Ele entrou numa cabine telefnica, pegou 2 enorme lista e se ps a procurar um
determinado nmero.

A fbrica local das Indstrias Matsumoto ficava num vasto distrito industrial, em Queens, no muito longe do Aeroporto La Guardia. s duas horas daquela tarde,
Masao apresentou-se ao departamento de pessoal da fbrica. Saltara de um nibus na frente da gigantesca instalao e ficara parado ali, com um n na garganta, olhando
para a placa que tinha o sobrenome do pai e seu. Aquele seria o seu refgio. Lera uma histria sobre um homem que escondera uma importante carta ao mistur-la com
outras sem importncia, em cima de sua mesa. Ningum pensara em procurar
ali. Pois ningum pensaria em procurar Masao na fbrica. Seria o ltimo lugar
que Teruo ou a polcia pensariam em revistar.

Masao telefonara e marcara um encontro com

o gerente de pessoal, Sr. Watkins. Uma secretria entregou um formulrio para
Masao preencher. Ele examinou-o e sentiu um aperto no corao.

Nome: No podia dar seu verdadeiro nome. Endereo: No tinha endereo.

Telefone: No tinha.

Local de nascimento: Era um estrangeiro aqui.

Ocupao: Fugitivo.

Parecera uma excelente idia se perder como um empregado entre centenas que
trabalhavam na fbrica Matsumoto. Mas aquilo... A secretria observava-o.

- Est com alguma dificuldade?

- Oh, no! - Masao se apressou em responder. Tornou a olhar para o formulrio.
Tinha de conseguir aquele emprego de qualquer maneira.

88

No havia qualquer outro lugar para onde pudesse se ir. Precisava ganhar o
suficiente para viajar at a Califrnia e falar com Kunio Hidalia. Levanto os olhos e constatou que a secretria ainda o ol: servava. Masao comeou a escrever.

Ao terminar, seu nome era Masao Harada, nas cera em Chicago, Illinois, e seu
endereo loca era o albergue da ACM. Sob Expei-inca, Masa( relacionou meia
dzia de empresas fictcias e in. ventou endereos em Chicago, Detroit e Denver Levaria semanas para conferir todas as informaes, e a esta altura ele j teria
ido
embora.

Dez minutos depois, Masao entrou na sala do Sr. Watkins. Era um homem gordo, de
meia-idade, lbios vermelhos e grossos, e uma peruca que parecia exatamente com
uma peruca. Ele examinou o formulrio que Masao entregara e comentou:

- Voc parece muito jovem para ter toda essa experincia que registrou aqui.

Masao experimentou um momento de pnico. Relacionara empregadores demais?
Watkins balanou a cabea, contrariado, enquanto acrescentava:

E nunca ouvi falar dessas empresas.

O que no era de admirar, j que no existiam.
- So muito pequenas, senhor.

Watkins soltou um resmungo.

89

- Desculpe, filho, mas s contratamos empregados experientes.

Masao no podia aceitar um no como resposta. Sua vida dependia disso.

- Mas sou experiente, senhor. - Havia desespero na voz de Masao. - Por favor,
experimente-me.

- Eu no...

A porta foi aberta nesse momento, e um homem em mangas de camisa entrou na sala
com uma pilha de papis.

- Pode mandar isso para Tony?

Watkins disse:

- Claro. Esse rapaz aqui alega ser um gnio em eletrnica. No quer lhe fazer
algumas perguntas?
O homem olhou para Masao.

- Est certo.

Watkins tornou a se virar para Masao.
- O Sr. Davis  nosso engenheiro-chefe.

- J trabalhou com equipamentos eletrnicos?
- indagou Davis.

- J, sim, senhor.

- Sabe como montar um sistema de circuito?

- Claro, senhor.

Era um terreno seguro, falar sobre uma coisa que conhecia e adorava. Masao falou
devagar, tomando cuidado ao traduzir os termos tcnicos do

japons para o ingls.

90

- Comea-se com o quadro vazio. O circuito desejado  fotografado nele, depois
se acrescentam os componentes. Consistem em transistores, resistores,
capacitores e CIs, que so os minicircuitos integrados. O quadro  mergulhado num banho cido, para se remover todo o resto. Depois...

- J chega! - disse o Sr. Davis, levantando a mo. Ele virou-se para o Sr.
Watkins. - Ele no apenas sabe do que est falando, mas tambm daqui a alguns
meses estar se candidatando ao meu emprego. Boa sorte, garoto.

O Sr. Davis se retirou. Watkins disse a Masao:

- Parece que voc conseguiu o emprego.

O corao de Masao disparou de alegria.
- Obrigado, senhor.

- Precisamos de algum na linha de montagem.
O salrio  de duzentos e cinqenta dlares por semana, para comear.

Masao converteu para ienes. Daria quase 52 mil ienes. Em uma semana, ganharia o
suficiente para a viagem  Califrnia. Watkins continuou a falar:

- Preciso do seu carto de seguridade social. Masao ficou atordoado. No tinha o
carto.

- Eu... h..... - Masao pensou depressa. - Esta com meu pai. Ele viajou. Vou
traz-lo assim que ele voltar.

91

Watkins deu de ombros.

- Tudo bem. Providenciarei tudo para voc comear logo. - Ele olhou atentamente
para o rosto de Masao. -Voc nunca trabalhou aqui antes, no ?

- No, senhor.

- Engraado... seu rosto me parece bastante familiar.

E Masao sentiu uma pontada de medo.

O interior da fbrica Matsumoto era espaoso, limpo e eficiente. Em circunstncias normais, Masao sentiria o maior orgulho ao pensar que tudo aquilo fora criado
por seu pai. Aquelas pessoas deviam seus empregos a Yoneo Matsumoto; s que Masao no pensava nisso agora. Aquele lugar no era uma fbrica para ele, mas sim um
esconderijo temporrio, um refgio.

Havia cerca de cem operrios na linha de montagem, muitos japoneses. Homens e
mulheres trabalhavam lado a lado. Masao foi apresentado ao capataz, um homem
pequeno, de rosto fino e antiptico. Seu nome era Oscar Heller, e Masao

sentiu uma averso imediata. Heller levou Masao, para o vestirio e jogou-lhe um jaleco branco.

92

- Pode vestir. Sempre usar isso quando esti ver na linha de montagem.
Entendido?

- Sim, senhor.

- Venha comigo.

Voltaram  linha de montagem. Heller apontou para um lugar vazio.

- Voc vai trabalhar ali. E no cometa erros, entendido?

- Entendido, senhor.
- Pode comear.

Masao observou o capataz se afastar, parar para passar a mo na bunda de uma das
moas. Ela se esquivou, disse alguma coisa, irritada, Heller riu, continuou
andando.
Masao ficou indignado. Como um homem assim podia ser promovido a capataz? Se
Masao pudesse se pronunciar a respeito, Heller seria despedido. Mas  claro que
Masao no podia dizer coisa alguma. Tinha muita sorte por estar trabalhando ali.

Ele virou-se, estudou a linha de montagem. Era exatamente como a fbrica em
Tquio. Era essa a vantagem da produo em massa. Poderia ir para qualquer das
fbricas Matsumoto espalhadas pelo mundo e sempre saberia como operavam.

Observou os circuitos impressos serem fotografados no quadro e o cido remover
todo o resto.

93

Buracos eram abertos no quadro, os componentes acrescentados, a montagem
seguindo numa correia transportadora para uma tina de solda, em que tudo se
tornava preso no quadro. Era uma operao que Masao j vira mil vezes.

O lugar de Masao na linha de montagem era entre um homem de meia-idade 
esquerda e uma moa  direita. Ambos eram japoneses. O homem virou-se para Masao e disse:

- Seja bem-vindo.
- Obrigado.

Masao, olhou para a moa e seu corao quase parou. Era a coisa mais linda que
ele j vira. TInha um rosto oval e suave, olhos meigos e inteligentes. Parecia
ser da sua idade. Ela percebeu que Masao a observava e sorriu.

- Seja bem-vindo.
- Obrigado.

- Meu nome  Sanae Doi.

A voz era gentil, melodiosa.

- Meu nome  Masao... - Ele hesitou. - Masao, Harada.

Masao levantou os olhos e deparou com Heller a observ-lo, com uma expresso
irada, do outro lado da linha de montagem. Ele vai me criar problemas, pensou
Masao.

-  melhor comear a trabalhar logo - sussurrou

94

Sanae. - O Sr. Heller no gosta de ver ningum ocioso. Quer que eu lhe mostre
como fazer'
- Obrigado, mas acho que j sei.

E enquanto Sanae observava, Masao pegou o componentes  sua frente e comeou a
Mont-los. Trabalhava com uma habilidade inata, cada movimento eficiente e rpido.
Sanae ficou impressionada. Nunca vira nada parecido.

- Voc...  muito bom - comentou ela.

- Obrigado.

Masao gostava de trabalhar com as mos. Mas sabia que, com o passar do tempo,
acabaria entediado com aquele servio. Seu crebro precisava de algo mais
desafiador.
Agora,  claro, isso no tinha importncia. Estava ali porque era seguro,
trabalhando em sua prpria companhia, disfarado como um dos operrios. Os dedos
efetuavam a montagem de forma automtica, enquanto a mente se desviava para outras  questes. Haveria um problema quando deixasse de apresentar o carto de
seguridade social.
Outro problema seria o de encontrar um lugar para morar. Restava bem pouco dos
cem dlares que ganhara na corrida. S receberia o primeiro pagamento dentro de
uma semana e os poucos dlares de que dispunha no durariam por tanto tempo.

 - 95

Havia um intervalo para o caf durante a manh e outro  tarde. No intervalo da
tarde, Masao fez questo de vaguear pela fbrica, a fim de ter uma noo do
lugar.
Conversou com alguns operrios. Pareciam competentes, interessados no trabalho.
Com suas perguntas aparentemente casuais, Masao descobriu que se sentiam felizes
e orgulhosos por trabalharem ali. Meu pai ficaria satisfeito por isso, pensou
Masao. At onde ele podia perceber, o nico problema era o capataz, Oscar
Heller. Era um algoz, os operrios tinham medo dele, tentavam evitar sua ira. E outra vez Masao se perguntou como o Sr. Heller conseguira o cargo de capataz. Quando
ouviu Heller gritar agressivo com uma mulher, que cometera um pequeno erro, Masao desejou poder interferir, mas sabia que tinha de permanecer to quieto quanto
possvel e tentar escapar a qualquer ateno.

Uma campainha tocou s cinco horas, e os operrios encerraram o expediente.
Foram para o vestirio, onde trocaram o jaleco branco por seus palets e
casacos. Masao observou Sanae vestir seu casaco. Ela era muito graciosa. E Masao decidiu que haveria de conhec-la melhor.

96

Masao saiu da fbrica junto com os outros mas havia uma grande diferena: eles tinham uma casa para onde ir. E ele no tinha nenhum lugar em que pudesse se
abrigar. No podia correr o risco de ficar nas ruas  noite. A polcia estaria  sua
procura, e Teruo tambm. Precisava encontrar um quarto. Foi andando por ruas
transversais, at encontrar um hotel que parecia barato, com um toldo velho e rasgado na frente. Masao entrou no saguo. Dava a impresso de que havia anos no
era limpo, e exalava o cheiro bolorento da derrota. Por trs do balco estava um recepcionista entediado, lendo um livro que tinha uma mulher nua na capa. Masao
adiantou-se.

- Com licena. Tem um quarto vago?

O recepcionista acenou com a cabea, sem levantar os olhos.

- Tenho.

- Quanto custa, por favor?

- Quer para um dia, uma semana, ou um ms? Masao se perguntou como algum
suportaria viver num lugar assim durante um ms.

- Por uma semana.

O recepcionista levantou os olhos.

- Dez dlares por uma noite, sessenta dlares para a semana. Pagamento
adiantado.

Masao calculou que consumiria todo o dinheiro

97

que lhe restava, mas no tinha opo. Estava seguro agora durante o dia, mas
precisava de um lugar para se refugiar  noite.

- Est certo. Fico com o quarto.

O recepcionista tirou uma chave de um gancho e estendeu-a para Masao.

- Tem bagagem?

- No.

O homem no se mostrou surpreso. Masao especulou que tipo de pessoas viviam
naquele lugar. As perdidas e derrotadas. As que haviam desistido

da vida.

- Quarto 217, segundo andar.
- Obrigado.

Masao virou-se, subiu a escada. O carpete era pudo e rasgado, as paredes se
achavam cobertas de grafites: Kilroy esteve aqui, mas foi embora. No podia
suportar o fedor.. Mary ama John; John ama Bruce... Socorro! rem-me daqui!...

Paraso das Baratas...

Por mais sujos e desleixados que fossem o,saguo, a escada e o corredor, no
prepararam Masao para seu quarto. Durante toda a sua vida tivera um quarto
adorvel, grande, limpo earejado, com uma linda vista dos jardins e campos alm. Aquele quarto era pouco maior que um closet, imundo e assustador, com uns poucos
mveis ordinrios e escalavrados, uma janela com o vidro quebrado dando para uma
parede de tijolos. O pequeno banheiro continha um pia encardida, um vaso com a
tampa de plstico empenada e um boxe em que mal se podia ficar de p. A roupa de cama parecia no ter sido trocada h uma semana. Masao olhou ao redor, sem saber
por quanto tempo conseguiria suportar aquilo. Ora, viveria um dia de cada vez.

No lhe restava dinheiro para o jantar, e ele no queria andar pelas ruas, onde
algum poderia reconhec-lo. Por isso, permaneceu no quarto, tentando planejar o
futuro. Avaliou os problemas com que se defrontava:

1. No tinha dinheiro.

2. No tinha amigos.

3. Estava num pas estranho.

4. A polcia o procurava por um assassinato que no cometera.

6. O tio o procurava para mat-lo.

A situao era to ruim que Masao quase riu. Podia parecer desesperanada para
outra pessoa, mas ele era Masao Matsumoto, o filho de Yoneo Matsumoto, e nunca
desistiria.

No enquanto estivesse vivo.



Masao foi para o trabalho no incio da manh seguinte, andando depressa, a fim de
s ficar exposto nas ruas o

mnimo possvel. Chegando  fbrica, vestiu o jaleco branco e foi ocupar seu
lugar na linha de montagem. Sanae j estava ali.

- Bom dia.

- Bom dia.

A correia transportadora comeou a se movimentar e Masao tentou se concentrar
nos quadros de circuitos que passavam  sua frente. Era muito difcil se
concentrar, pois se confrontava com uma experincia por que nunca passara antes: fome. No comia nada h mais de 36 horas e no tinha idia de onde viria sua prxima
refeio. Entregara o resto do seu dinheiro ao recepcionista do hotel, e no receberia o pagamento antes da semana seguinte.

Masao nunca pensara sobre a fome antes. Quando uma pessoa  bemalimentada, no
pensa em comida; mas quando uma pessoa est faminta, no consegue pensar
em outra coisa.

A campainha do almoo soou e Masao observou os outros operrios sarem para
comer. Alguns compravam o almoo nos caminhes que estacionavam ao lado da
fbrica, vendendo sopa, sanduches, caf e roscas. Outros traziam a comida de casa. Havia um parque pequeno e aprazvel na frente da fbrica, com
bancos onde os operrios podiam sentar ao sol. Como era um dia quente e
ensolarado, muitos foram comer 1 fora. Masao ficou parado num canto, observando-os com inveja. E foi nesse instante que uma voz ao seu lado indagou.

- No vai almoar?

Ele virou-se e deparou com Sanae.

- Eu... h... Comi muito no desjejum.

Masao preferia morrer a admitir que no tinha dinheiro para comprar comida.
Sanae estudou-o por um momento e disse, gentil:

- Se mudar de idia, tenho um sanduche extra.
O orgulho levou Masao a responder:

- No, obrigado.

No era um mendigo, e sim o filho de Yoneo Matsumoto. Sanae virou-se, foi at um
banco e sentou-se com colegas de trabalho. Masao refletiu que ela era a coisa
mais adorvel que j vira. Quando um rapaz se aproximou e sentou-se ao lado de Sanae, Masao sentiu uma sbita pontada de cime. Sabia como estava sendo tolo. Era
um criminoso procurado. Tinha de viver um dia de cada vez. No ousava pensar em
qualquer outra coisa seno permanecer vivo. A fbrica era sua, aquelas pessoas
trabalhavam para ele, mas por um irnico desvio do destino no podia comprar sequer um pedao de po. Algum largou um sanduche pela metade num banco, e Masao
teve de fazer um esforo para  no sair correndo e peg-lo.

A campainha soou. Era hora de voltar ao trabalho.

Sanae tinha certeza de que havia alguma coisa errada. Estava consciente da
presena de Masao desde que ele entrara na fbrica. Havia uma diferena nele, um
senso de orgulho, que o distinguia dos outros. E era bvio para Sanae que no se
tratava de um operrio comum. Ele possua uma incrvel habilidade. Sanae tentou analisar o que a perturbava naquele rapaz. Masao tinha a aparncia de algum acostumado
a coisas boas, e no entanto usara as mesmas roupas por dois dias consecutivos. E exibia uma cautela nervosa que deixava Sanae intrigada.

E havia ainda aquela histria de o rapaz no comer. Sanae o vira observando os
outros e percebera a fome em seu rosto. E sua curiosidade aumentava a cada momento que passava.

104

Masao tinha a impresso de que Sanae o exami nava discretamente, mas ela
desviava o rosto( cada vez que a fitava. s trs horas houve um, intervalo para o caf.
Os operrios largaram as ferramentas e saram para comprar lanche nos caminhes
de comida estacionados l fora. Masao foi sentar-se num banco vazio, tentando esquecer a maneira como seu estmago roncava, esperando a campainha para retornar
ao trabalho, Um momento depois, Sanae
sentou-se ao seu lado. Trouxera duas xcaras de caf e dois sonhos.

- Pensei que voc poderia gostar de partilhar isso comigo murmurou ela.

Masao fitou-a em silncio por um momento, pensando em recusar, mas a tentao
era irresistvel.

- Obrigado - murmurou ele, polido.

Pegou uma xcara e um sonho, esperou que Sanae desse uma mordida no seu. S
depois  que Masao levou o sonho  boca. Era a melhor coisa

que j provara em toda a sua vida. A vontade era devor-lo num instante, mas
tratou de se controlar. Tomou um gole do caf, e o lquido quente, escorrendo
pela garganta, tinha um sabor maravilhoso.

Os dois ficaram sentados ali, comendo em silncio. Sanae estudou Masao. Havia nele uma intensidade que ela jamais reparara em qualquer outro homem. Ele parecia
cordial e franco, mas ao mesmo tempo Sanae sentiu que era uma pes
soa bastante retrada.

- De onde voc ? - perguntou ela. Masao hesitou apenas por um instante.
- Tquio.

Ela nunca veria a ficha no departamento de pessoal que dizia Chicago.

- Meus pais nasceram em Tquio - comentou Sanae.

- J esteve no Japo?

- No.

Masao suspirou, dominado por uma nostalgia entre amarga e doce.

-  um lindo pas.

Ele se perguntou se algum dia tornaria a v-lo, se algum dia voltaria  sua
casa.

- Tenho certeza que . Espero um dia ir at l. Sua famlia est aqui com voc?

Masao hesitou outra vez. No tinha o menor

desejo de mentir para Sanae, mas a verdade era perigosa.

- Est, sim.

E, de uma maneira terrvel, era verdade. A me e o pai estavam com ele,
dependiam dele. No teria paz enquanto no lhes proporcionasse um funeral apropriado.

Masao olhou para Sanae e teve um profund( pressentimento de que os dois poderiam
se tornar grandes amigos. No, pensou ele, sincero, mais do que bons amigos.
Mas isso nunca aconteceria. Tais sonhos eram para os outros, no para ele. Devia
pensar apenas numa coisa: sua sobrevivncia.

O som da campainha assinalou o final do intervalo para o caf.

Masao resolveu seu problema de dinheiro naquela noite. No pequeno distrito
comercial, perto do hotel, passara por uma loja de penhores, com trs enormes
bolas de ferro penduradas por cima da porta. O nico bem precioso que Masao tinha em seu poder era o relgio que o pai lhe dera ao completar dezoito anos. Era de
ouro,
de 21 quilates, mas para Masao o valor maior estava no fato de ter sido um presente
do pai. Nunca lhe passaria pela cabea se desfazer do relgio; agora, porm, no
tinha opo. Hesitou por vrios minutos, antes de entrar na loja e pr o relgio
no balco.

107

- Gostaria de tomar um dinheiro emprestado, deixando este
relgio como garantia - disse Masao. - Voltarei para busc-lo um dia.

Se tudo correr bem, pensou ele. Se no corresse, seria preso ou morreria, e
assim no faria a menor diferena.

O homem do penhor pegou o relgio, examinou-o com uma lupa de joalheiro, balanou a cabea em aprovao.

 um bom relgio. Quanto quer emprestado? Quinhentos dlares.

O homem sacudiu a cabea.  demais.

Trezentos dlares.

Duzentos e cinqenta.

Negcio fechado - concordou Masao.

Seria mais do que suficiente para lev-lo de nibus at a Califrnia. Pensara
muito no que faria e

conclura que a resposta para seu problema estava

em Los Angeles, onde encontraria Kunio Hidalia. Masao observou o penhorista
contar o dinheiro e lhe entregar, junto com um tquete.
- Este  o tquete do penhor. Tem seis meses para resgatar o relgio. Depois desse prazo, eu o venderei.

Seis meses! Masao nem mesmo tinha certeza se estaria vivo dali a seis dias.

108

- Obrigado. Eu voltarei.

Masao deu uma ltima olhada no relgio, depois guardou o dinheiro no bolso e se
retirou. Foi para um restaurante japons, a poucos

quarteires do hotel, e teve de fazer um esforo para no correr. O simples
pensamento de comida o deixava com a boca cheia d'gua.

Sentou-se, fraco de fome, e pediu a comida. Empanturrou-se com sopa de miso,
onkatsu, arroz, legumes em conserva, e camaro no tempura, com frutas frescas de
sobremesa.
Ao terminar, Masao sentia-se como um novo homem, pronto para enfrentar o mundo
de novo.

Os dias seguintes transcorreram na maior tranqilidade; e tanta que Masao quase
esqueceu o perigo que corria. Lia os jornais com o maior cuidado, todos os dias.
A histria de como assassinara um motorista, fugindo em seguida, saiu da
primeira para a segunda pgina, e acabou sendo relegada para uma pgina interna,
passando quase despercebida. Masao passou a respirar com mais facilidade. No mais
experimentava a sensao de que era iluminado por refletores. A polcia tinha
outras coisas com que se preocupar. E muito em breve Teruo se cansaria de procur-lo.

 - 109

Masao levantava cedo todas as manhs, comia o desjejum numa pequena lanchonete
perto do hotel e seguia a p para a fbrica. Cada vez que entrava ali, sentia o
maior
orgulho, a impresso de que ficava mais prximo do pai. Mas havia outro motivo
para que Masao gostasse de ir trabalhar - Sanae. Pensava nela  noite, quando
ficavam
separados. Gostava de ficar ao seu lado na linha de montagem, observando-a
trabalhar.

O bom-dia jovial de Sanae parecia a Masao uma maneira maravilhosa de iniciar o
dia. Conversavam um pouco quando o capataz no estava olhando, e logo adquiriram o hbito de almoar juntos, e tambm sarem juntos nos intervalos para o caf,

Quanto mais via Sanae, mas Masao gostava dela. Ela falou sobre sua famlia.

- Meu pai e minha me vieram para c pouco antes de eu nascer.

- Posso perguntar qual  a ocupao de seu pai?

- Ele  um artista. - Uma pausa, e Sanae se corrigiu: -Era um artista. No pode
mais pintar, por causa da artrite.

-  por isso que voc trabalha?

110

- , sim. Meus pais s contam comigo. Eu ia cursar a faculdade de medicina.
Talvez um dia ainda consiga.

No havia o menor vestgio de auto-compaixo em sua voz.

- Gosta de trabalhar aqui? - perguntou Masao.
- Gosto muito. A no ser por... - Ela acenou com a cabea na direo de Heller,
o capataz. Ele no  nada simptico.

- Concordo. Seria muito mais agradvel aqui sem ele.

- Fale-me sobre voc, Masao.

Era um pedido inocente. E muito perigoso. Por um instante frentico, Masao
sentiu-se tentado a contar tudo. Precisava desesperadamente de algum com quem
conversar, a quem pudesse confidenciar. Mas sabia que isso era impossvel. E por isso
respondeu, com extremo cuidado:

- No h muito o que contar. Sou interessado em eletrnica. E achei que este
seria um bom lugar para aprender.

Sanae fitou-o, curiosa.
- Estive observando-o.

- E o que viu?

- Voc no precisa aprender nada.

- Eu...

A tentao de ser sincero com Sanae era quase irresistvel, mas Masao sabia que no devia ceder. Pelo bem da prpria Sanae.
Era perigoso demais. Ele ainda no estava preparado para enfrentar Teruo.

Masao descobriu-se diante de um novo dilema. Queria muito convidar Sanae para sarem juntos, lev-la para jantar, depois
um cinema, ou uma discoteca. S que no ousava. Receava ser visto em pblico,
pois sempre havia a possibilidade de que algum o reconhecesse. No queria envolv-la em seus problemas.

Sanae sentia-se perplexa. Masao parecia gostar dela e apreciar sua companhia; e,
no entanto, no a convidava para sair. J revelara que no tinha namorado e
sabia que Masao no se achava ligado a ningum. Mas ele no demonstrava o menor
interesse em v-la fora do trabalho. Era o homem mais desconcertante que j conhecera.

O problema foi resolvido para ambos pelo Mets de Nova York e o Phillies de
Filadlfia.

Havia um lugar pblico em que Masao se sentiria seguro: o estdio. Com milhares
de torcedores presentes, ficaria perdido na imensa multido. Masao era um f
ardoroso de beisebol e, quando leu no New York Rmes que o Mets jogaria com o Phillies no Shea Stadium, no pde resistir. Alguns dos seus dolos jogavam nessas

112

equipes e Masao no podia perder uma oportunidade de assisti-los em ao.
Levantou-se bem cedo naquela manh e entrou numa enorme fila no estdio, a fim
de comprar
um ingresso. Ao chegar  frente da fila, o bilheteiro indagou:

- Quantas entradas?

Masao, respondeu sem pensar:

- Duas.

Ele pagou e foi embora, perguntando-se o que o levara a comprar duas entradas,
em vez de uma. Mas  claro que sabia. Queria levar Sanae. Mas logo comeou a se
preocupar.
E se Sanae no quisesse sair com ele? E se no gostasse de beisebol, ou tivesse
outro compromisso? Masao, passou a manh se torturando com essas especulaes.

Ao meio-dia, sentou-se com Sanae sob as rvores, para almoar. Decidira abordar
o assunto de forma gradual. Em vez disso, porm, descobriu-se a perguntar
abruptamente:

- Tenho duas entradas para o jogo do Mets amanh. Gosta de beisebol?

Sanae detestava beisebol.

- Adoro.

Ela observou o rosto de Masao se desmanchar

num vasto sorriso.

- Maravilhoso! O Mets vai jogar contra o Phillies. Tug MeGraw ser o lanador. Lee Mazzilli ser o primeiro a rebater para o Mets.

Para Sanae, era como se ele estivesse falando sobre marcianos.

- Ser emocionante!

No importava para ela aonde Masao a levaria. Sabia apenas que gostava de sua
companhia, que era o rapaz mais atraente que j conhecera. Havia algo em Masao
que no entendia - uma certa tenso, uma cautela quase animal, que no combinava com sua personalidade. Ele parecia se manter em constante viglia, contra alguma

coisa ou algum. s vezes parecia at - e Sanae sentia-se uma tola por sequer pensar
assim - assustado. Sabia que algo perturbava Masao e esperava que um dia ele se
sentisse bastante ntimo para contar tudo. Enquanto isso, se era uma coisa que deixava Masao feliz, ela estava mais do que disposta a assistir a uma dzia de partidas
de beisebol ao seu lado.

O Shea Stadium ficou lotado. Masao refletiu que nunca vira tantas pessoas
juntas, num determinado momento, em toda a sua vida. Os estdios no Japo eram
grandes, mas no se comparavam com aquele, Todos os nomes de que Masao ouvira e lera, ao longo dos anos, estavam no campo. Ele os apontou para Sanae.

- V aquele grandalho saindo do banco? Steve Henderson, o melhor jogador do
meio do campo.

- J vi - murmurou Sanae, submissa.

- Ei, aquele  Frank Taveris!  um dos grandes jogadores da segunda base.

Sanae balanou a cabea, muito sria.

- Eu sei.

- E l vem Craig Swann! Ser o primeiro arremessador do Mets.

O Phillies seria o primeiro a rebater. Pete Rose seria seu primeiro rebatedor,
seguido por Matty Trio, na segunda base do Phillies, e Mike Schmidt, na terceira
base.

Masao no poda desviar os olhos do campo e Sanae no conseguia desviar os olhos
de Masao. Ela nunca vira ningum num exeitamento to genuno. Masao era um
adulto em certas coisas, mas tambm conservava um entusiasmo infan
til, que ela adorava.

- Olhe ali! - exclamou Masao. -  Greg Luzinski!

- Fico contente por saber que ele vai jogar murmurou Sanae, sorrindo.

A P E R SE G U 1 O - 1 15

Sanae sabia que muitos fs de beisebol eram torcedores fanticos de seus times,
mas Masao torcia pelos dois times! No fazia diferena para ele quem vencesse.
Era o jogo que ele amava, o esporte, os lanamentos, rebatidas, e todo o resto.

Por isso, o evento extraordinrio que ocorreu no final da partida foi um choque
ainda maior para Sanae do que poderia ser em circunstncias normais
O Mets tinha o basto, com as bases ocupadas. At mesmo Sanae, que pouco
conhecia de beisebol, sabia que se tratava de um momento emocionante. Steve
Henderson levantou o basto e a
multido delirou. Todos se encontravam de p, gritando, torcendo para que ele
fizesse a jogada que daria a vitria a seu time.

Foi nesse momento crucial que Masao virouse para Sanae, o rosto subitamente
plido, e murmurou:

- Vamos sair daqui!

Antes de entender o que acontecia, Sanae descobriu-se sendo arrastada pela
arquibancada, e se encaminhando para a sada do estdio. No podia acreditar.
Masao decidia se retirar no momento mais emocionante do jogo.

A multido explodiu em berros. Algo muito importante acontecia no campo. Sanae
disse:

116

- Masao, no quer ver o que...
- No! Depressa!

A expresso de Masao era sombria, os passos apressados. Sanae olhou para trs.
Policiais uniformizados subiam pelos lados da rea que haviam acabado de deixar,
esquadrinhando
a multido, Um minuto depois, Sanae e Masao entraram num dos tneis que levavam
s sadas do estdio. Ele conduziu-a para um txi.

- No queria esperar para assistir ao final do jogo? -indagou Sanae.

- No tem importncia.

Mas ela fitou o rosto de Masao e compreendeu que alguma coisa importava. Alguma
coisa terrvel.

Na fbrica, na manh seguinte, Masao parecia ter voltado ao normal.

- Desculpe ter sado antes do fim do jogo disse ele a Sanae, calmamente. - O
Mets venceu. Foi um grande jogo, no acha?

Era como se nada tivesse acontecido. Sanae fi
cou desorientada, sem entender nada. Daria qualquer coisa para saber o que
perturbava Masao, mas ainda no o conhecia bastante bem para

 117

perguntar. S sabia que queria ajud-lo, por todos os meios que Masao lhe
permitisse.

Poucos minutos antes da hora do almoo, Heller, o capataz, passou pela porta.
Sanae olhou e avisou:

- Temos visitantes.

Masao olhou tambm. Teruo Sato avanava em sua direo.

Por um terrvel momento, Masao ficou imvel, a mente e o corpo paralisados pelo
medo. Seu primeiro pensamento foi

o de que o tio descobrira seu esconderijo e viera busc-lo. Mas enquanto
observava, percebeu que Heller conduzia Teruo pela linha de montagem, explicando
a operao.
Portanto, a visita do tio nada tinha a ver com ele. Teruo ainda no vira

Masao, mas dentro de poucos momentos ficariam frente a frente. Masao tomou uma
deciso

rpida. Assim que Teruo e Heller se aproximaram de sua mesa de montagem, Masao
deslocou o cotovelo e derrubou no cho um quadro de circuito. Abaixou-se no
mesmo
instante, oculto pela mesa, para recolher os componentes esparramados pelo cho.

- Ei, voc, tome cuidado! - berrou Heller.
- Desculpe murmurou Masao.

Ele estava de quatro no cho, as costas viradas para os dois homens, pegando as
peas. O corao batia forte, a respirao era acelerada. Se o tio o
reconhecesse,
Masao poderia correr, mas sabia que no iria muito longe. Uma palavra, e os
outros operrios o pegariam. Ele levantou os olhos e constatou que Sanae o
observava,
com uma expresso de perplexidade. Ela o vira derrubar o quadro de propsito.

122

- Eles j foram? - sussurrou Masao.

Sanae olhou para a porta no outro lado, por onde os dois homens passaram.

- J, sim.

Masao levantou-se, devagar, banhado de suor.
- Est metido em alguma encrenca? - indagou Sanae, baixinho.

A encrenca em que ele se encontrava era muito maior do que Sanae jamais poderia
imaginar!
- No - respondeu Masao. - Eu apenas... foi

um acidente.

Soava fraco at para seus prprios ouvidos. Os ternos olhos castanhos de Sanae
ofereciam

apoio e amizade.

Masao forou-se a voltar ao trabalho, mas a falsa sensao de segurana
desaparecera. Em seu lugar, havia um sentimento de raiva. Teruo Sato
excursionava por seu
novo imprio, agindo como se lhe pertencesse. E, com Masao fora do caminho,
seria mesmo dele, Masao nunca se sentira to impotente em toda a sua vida.

Cada vez que algum abria a porta, ele se apressava em olhar. Teruo poderia
voltar a qualquer momento, Sanae observou o estranho comportamento de Masao, mas
no
disse nada. Fitou-o, esperando uma explicao, querendo ajud-lo, mas ele se
manteve em silncio. Sentiu que Sanae

123

ficava magoada por seu silncio, mas nada havia que pudesse fazer. O problema
era s seu. Teruo no voltou naquela tarde, nem no dia

seguinte, nem no outro, e Masao comeou a respirar aliviado. A visita fora
apenas para inspecionar a fbrica. Era evidente que Teruo no fazia idia de que
o sobrinho
se escondia ali. E era improvvel que retornasse  fbrica. Portanto, de certa
forma, estou mais seguro do que nunca, pensou Masao.

Sexta-feira era o dia do pagamento. Ele receberia o cheque e partiria para a
Califrnia. Perturbava-o a perspectiva de deixar Sanae. Sabia que sentiria a
maior saudade.
E teria de ir embora sem qualquer explicao, desaparecendo como um ladro na
calada da noite. Talvez algum dia pudesse explicar.

Se sobrevivesse.

Ao final da tarde de sexta-feira, os operrios entraram em fila no guich do
caixa para receber os cheques semanais. Sanae se encontrava quase na frente da
fila,
com Masao alguns passos atrs. Ele observou Sanae receber um envelope com o
cheque e um pedao de papel. Ela olhou para o

124

papel e empalideceu. Virou-se apressada, apro ximou-se de Masao, e sussurrou:

- Voc tem de sair daqui! Ele ficou aturdido.

Por qu?

Venha comigo! Depressa!

Sanae ergueu o papel em sua mo, para que Masao pudesse v-lo. Era uma
fotografia sua, com uma legenda que dizia PROCURA-SE e RECOMPENSA. Estava sendo
distribudo
a todos os empregados.

Sanae pegou o brao de Masao. Tentando se comportar com o mximo de naturalidade
possvel, eles se encaminharam para uma porta lateral que dava para uma viela. O
instinto de Masao era correr, mas sabia que isso seria fatal. Passara uma semana
trabalhando junto de algumas daquelas pessoas. Conheciam seu rosto. Poderia ser
reconhecido a qualquer momento. Forou-se a andar devagar, esperando a qualquer
instante ouvir uma voz gritar: L est ele! Peguem-no! Mas alcanaram a porta e
saram.

- Tenho de deix-la aqui - murmurou Masao. Ele no tinha idia de onde poderia
se esconder. Estava convencido de que Teruo distribura a fotografia em todas as
fbricas
Matsumoto do pas. Agora, no ficaria seguro em parte alguma.


125

- Para onde voc vai?

- No sei.

Os dois caminhavam pela viela, afastando-se da fbrica.

- Vou lev-lo para minha casa - anunciou Sanae. - Nunca o procuraro ali.

Masao sacudiu a cabea.

- No posso deix-la se envolver nisso.
- J estou envolvida.

Masao fitou-a, sem compreender, a mente povoada por pensamentos de
sobrevivncia.

- Venha comigo, por favor.

- No. - Masao virou-se para ela. Era o momento da verdade. - Sou procurado pela
polcia. - Ele respirou fundo, e arrematou: - Por assassinato.

Sanae estudou-o por um momento.
- Voc  culpado, Masao?

- No.

Ela sorriu.

- Eu sabia que no. - Sanae pegou a mo de Masao. - Vamos embora.

Sanae e os pais moravam num velho prdio de apartamentos, a um quilmetro e meio
do hotel em que Masao se hospedava. O apartamento era pequeno, limpo e arrumado,
com muitos objetos

126

de arte japoneses. Havia quadros com lindas paisagens pendurados em todas as
paredes, e Masao recordou que Sanae dissera que seu pai era pintor.

Os pais de Sanae estavam sentados na sala quando os dois entraram. O Sr. e Sra.
Doi viviam na Amrica havia muitos anos, mas Masao teve a impresso de que ainda
se apegavam s tradies japonesas. Exibiram uma cortesia antiquada quando Masao
lhes foi apresentado. Masao concluiu que Sanae parecia com a me, que ainda era
uma bela mulher, com um corpo gracioso. Masao, contemplou as duas, e era como
olhar para um espelho do futuro. O Sr. Doi era um homem franzino, com um rosto
fino
e sensvel. Masao notou as mos disformes e refletiu que era uma pena que ele
no pudesse mais pintar aqueles lindos quadros.

- Meu amigo Masao, est metido numa encrenca, mas no  por culpa dele - disse
Sanae aos pais, vrando-se em seguida para Masao. Conte tudo a eles.

E Masao sentiu-se acuado. Porque no podia contar.. no a verdade. No podia
admitir que era Masao Matsumoto, porque sentiria vergonha em revelar a estranhos
as
coisas sinistras que vinham ocorrendo em sua famlia. Era uma questo
particular.

 - 127

Todos o fitavam, na maior expectativa. Sanae confiava nele, e teria de lhe
mentir outra vez, assim como para seus pais. Ela nunca mais lhe dispensaria a
menor confiana.
O que magoaria Masao mais do que julgara possvel, s que no tinha opo.
Recordou a histria que contara antes a Sanae. Era melhor se ater a uma s men
tira, do que elaborar uma tela complicada de mentiras, que acabaria por tra-lo.

Vim para a Amrica com meus pais - comeou Masao. ~ Deveria ser uma viagem de
negcios rpida, e voltaramos logo a Tquio. Mas gostei muito deste pas, e
disse
a meu pai que gostaria de ficar aqui. Tivemos uma discusso por causa disso e
fugi.

A mente de Masao trabalhava depressa, desenvolvendo a histria.

- Meu pai contratou um homem para me encontrar. Tivemos uma briga, esse homem
escorregou, caiu do telhado. E morreu.  por isso que a polcia me procura.

Houve um longo silncio. Ao final, o pai de Sanae disse:

- Hum...  muito azar. No teve nada a ver

com a morte desse homem?

- No, senhor. Absolutamente nada. Foi um acidente.

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Isso pelo menos era verdade.

Ento deve procurar a polcia e explicar tudo. Masao balanou a cabea,

Se eu fizer isso, senhor, meu pai me obrigar a voltar ao Japo.

O Sr. Doi olhou para a esposa e a filha, antes

de declarar:

Devemos pensar a respeito com todo cuidado.

Naquele momento, na sala do gerente de pessoal da fbrica Matsumoto, reinava o
maior exeitamento. Watkins, o gerente, e Heller, o capataz, conversavam com Sam
Collins,
o detetive particular que Teruo contratara para encontrar Masao. Os homens
examinavam a fotografia de Masao.

- Vocs tm certeza de que  mesmo ele? perguntou Sam Collins. - Certeza
absoluta?

- No h a menor dvida - respondeu Watkins.
- Contratei-o na semana passada. Ele...

Heller interveio, ansioso:

- H alguma recompensa por ele?

- Muito grande. - Sam Collins passou um dedo pelo nariz quebrado. - Sabem para
onde ele pode

ter ido?

Watkins sacudiu a cabea.

129

- No. Contaram-me que saiu correndo quando viu seu retrato. Nem mesmo recebeu o
pagamento. - Seu rosto se iluminou. - Ei, ele deve voltar para pegar o cheque, e
poderemos...

O detetive soltou um grunhido.

- No se engane. O garoto  esperto demais para voltar.

- Esperem um pouco! - exclamou Heller. Acho que sei como podemos localiz-lo.

Os outros dois o fitaram, expectantes.

- Ele fez amizade com uma de nossas operrias, Sanae Doi. Algum os viu sair
juntos. A moa talvez possa nos dizer para onde ele foi.

Foi a vez de o rosto do detetive se iluminar.

Sabe onde mora essa tal de Doi?

 fcil descobrir.

Watkins foi at um arquivo de metal, abriu uma gaveta, folheou as fichas dos
empregados.
- Aqui est... Sanae Doi.

Ele forneceu o endereo ao detetive.

- No vai esquecer a recompensa? - lembrou Heller.

- Se eu o encontrar - respondeu Sam Collins todos ns ficaremos ricos.

E o detetive saiu.

130

No apartamento dos Doi, alheios ao perigo imi. nente, Masao, Sanae e seus pais
discutiam a situao.

- Ainda acho que seria melhor se voc procurasse a polcia e contasse a verdade
- insistiu o

Sr. Doi. - No seria to terrvel assim voltar ao

Japo com seus pais. Eles devem estar muito preocupados.

Masao, se aprofundara demais na mentira para poder sair agora. No tinha como
explicar.

- No posso voltar de jeito nenhum. Talvez mais tarde, mas no agora.

- Concordo com meu marido - interveio a

Sra. Doi. - Fugir no  uma soluo, mas sim um problema.

Masao virou-se para Sanae, que se mantivera em silncio, escutando apenas. Ela
no queria que Masao voltasse para o Japo, mas tambm no o queria metido numa
encrenca.
E tinha a impresso de que a situao era mais sria do que Masao lhes dissera.
Ningum se daria ao trabalho de distribuir a foto de Masao, a todos os
empregados
da fbrica se no houvesse mais alguma coisa na histria. Muito mais. Mas ela
acreditava em Masao.

- Acho que Masao sabe o que  melhor para ele - disse. - A deciso  dele.

Masao sentiu-se grato por ver que ela o apoiava.

131

- Tenho um amigo na Califrnia - disse ele. Se puder alcan-lo, sei que me
ajudar.

-  uma pessoa em quem pode confiar? - indagou o Sr. Doi.

- , sim, senhor. Seu nome  Kunio Hidaka. Ele trabalha para...

Masao j ia dizer meu pai, mas se controlou a tempo. Concluiu:

- Ele trabalha para as Indstrias Matsumoto. Que terrvel equvoco quase
cometera! O Sr. Doi pensou por um momento.

- A polcia o procura por aqui. Portanto, seu problema  sair de Nova York sem
ser notado. Isso mesmo, senhor. Mas ser difcil.

Mas h um jeito - anunciou o Sr. Doi. Masao inclinou-se para a frente, na maior
ansiedade.

- Como, senhor?

E nesse momento soou uma batida forte na porta.

- Abram! - gritou uma voz. - Polcia!

Masao ficou rgido de medo. Os outros se entreolharam, alarmados.

- Depressa! - sussurrou Sanae. - V para o quarto!

Masao levantou-se, olhou para os trs.
- No quero criar problemas para...

132

- Para o quarto! Depressa!
- Abram a porta!

Masao hesitou s por mais um instante, de. pois virou-se e foi para o quarto.
Assim que ele desapareceu, Sanae abriu a porta. Sam Collins entrou, indagando:

- Onde ele est?

O Sr. Doi perguntou calmamente:
- Onde est quem?

- Sabe muito bem de quem estou falando!
O detetive tirou um emblema do bolso. - Sou da

polcia. E procuro por este rapaz.

Ele mostrou a foto de Masao para Sanae.
- Trouxe-o para c, no  mesmo?

- No, no trouxe ningum para casa - respondeu Sanae.

O detetive estava furioso.

- Sei que deixou a fbrica com ele. Tenho uma dzia de testemunhas.

-  verdade, samos juntos - confirmou Sanae, sem perder a calma. - E depois ele
me deixou.
- Deixou-a? E para onde foi?

- No tenho a menor idia.

Sam Collins fitou-a com uma expresso de incredulidade.

- No se importa que eu reviste o apartamen
to, no ?

133

O Sr. Doi levantou-se.

- Eu me importo, senhor. Esta  uma residncia particular. No tem o direito de
entrar aqui desse jeito. A menos que tenha um mandado judicial, eu me recuso...

Mas o detetive particular nem estava escutando. Teruo Sato lhe prometera uma
fortuna se levasse Masao, e era o que tencionava fazer. No deixaria que aquelas
pessoas
ou quaisquer outras o detivessem. Sacou o revlver, empurrou o Sr. Doi para o
lado e entrou no quarto. Sanae e os pais ficaram paralisados, esperando por um
som,
um grito, um tiro. A imaginao de Sanae se projetava num ritmo febril. O
detetive encontrara Masao e o espancara at a inconscincia... Masao tentara
escapar e
matara o detetive... os

dois lutavam at a morte.

Ela pensou que no suportaria o silncio por mais um momento sequer. E foi ento
que Sam Collins voltou  sala sozinho. Guardou a arma, num desapontamento bvio.

- Tem certeza de que no o trouxe para c? perguntou ele a Sanae.

Ela tentou esconder seu alvio.

- Aconteceu como contei. Ele me deixou.

O detetive olhou para os trs, frustrado. O instinto lhe dizia que o rapaz se
encontrava ali.

134

- Ele deu alguma indicao do lugar para onde poderia ir?

Sanae pensou por um momento.

- Disse uma coisa...

- O que foi?

O detetive era todo ansiedade.

- Disse que tinha um amigo.
- Que amigo?

- S falou que o amigo trabalhava numa discoteca no Brooklyn.

- No Brooklyn, hem? Obrigado.

No instante seguinte, Sam Collins saiu apressado do apartamento. Sanae e os pais
correram para o quarto. No havia ningum ali. Procuraram no quarto de hspedes,
no banheiro. Todos os cmodos estavam vazios. Sanae foi at a janela que dava
para a escada de incndio, espiou. No havia sinal de Masao.

- Ele se foi - murmurou o Sr. Doi.

E as palavras deixaram Sanae com um aperto no corao. Sabia que nunca mais
tornaria a ver Masao.

I

sentado em sua cadeira, Teruo Sato escutou o relato do detetive particular.

- Investiguei todas as discotecas no Broo

klyn, mas no descobri qualquer pista.

- A moa o enganou - declarou Teruo, calmamente.

Sam Collins ficou surpreso com a atitude de seu empregador. Tinha certeza de que
Sato ficaria furioso.

- Mas no se preocupe com isso - acrescentou Teruo. - Meu sobrinho estar em
suas mos

nas prximas vinte e quatro horas.

Sam Collins se mostrou espantado.
- Quer dizer que sabe onde ele est? Teruo balanou a cabea.

-No, mas saberei. Fique  espera junto do telefone. Eu lhe direi onde encontr-
lo. - A voz se tor
nou gelada. - E desta vez espero que no fracasse.
- No, senhor. Eu...

- Isso  tudo.

Ele estava sendo dispensado. Sam Collins lidara com homens perigosos durante
toda a sua vida adulta, assaltantes, assassinos, psicopatas, sdicos. Mas havia
alguma
coisa mortfera naquele homem sereno e de fala macia que o apavorava.

- Ficarei esperando a chamada - murmurou ele.
138

Teruo continuou sentado ali por muito tempo depois que o detetive se retirou,
imvel como uma esttua. At agora, o sobrinho se esquivara a todos os seus
movimentos.
Entrara em xeque, mas evitara o xeque-mate.

Mas Teruo j pensara na soluo para o seu problema. Descobriria Masao, atravs
da lgica no a sua lgica, mas uma lgica superior. Usaria um computador para
encontr-lo...
um computador Matsumoto.

A ironia proporcionou uma intensa satisfao a Teruo. Pegou um telefone, fez os
acertos necessrios, e uma hora depois estava na seo de computao da fbrica
Matsumoto,
conversando com o operador. Teruo explicou exatamente o que queria, e o operador
comeou a trabalhar, fornecendo os dados ao computador.

Teruo descreveu os hbitos de Masao, os hobbies, as coisas de que o rapaz
gostava, as que detestava. Haviam jogado xadrez muitas vezes, e Teruo sabia como
a mente
do sobrinho funciona
va, como ele pensava, como reagia. Isso tambm foi transmitido ao computador.

- Pode voltar dentro de duas horas, Sr. Sato disse o operador. - Terei todas as
informaes de que precisa.

Est certo.

 139

Teruo levantou-se, deixou a sala. Vagueou pela enorme fbrica, pensando: Isto
tudo  meu. E tambm as outras fbricas Matsumoto, espalhadas pelo mundo. Tudo
lhe
pertencia. Por direito. Tivera alguma dificuldade com Sachiko, mas acabara por
convencer a esposa de que era certo o que estava fazendo.

No lhe contara que a morte de Higashi fora acidental. Dissera que Masao o
assassinara e isso ajudara a convencer Sachiko ainda mais.

Cometera um erro ao comunicar s autori
dades que Masao assassinara Higashi. S fizera isso porque precisava da ajuda da
polcia para localizar o rapaz o mais depressa possvel. Mas tinha reservas a
respeito.
No queria Masao nas mos da polcia. Queria-o  sua merc. Por isso, contratara
o detetive particular, que lhe entregaria o rapaz pessoalmente. E desta vez no
haveria erros. Os computadores no cometem erros.

Duas horas mais tarde, Teruo voltou  sala de computao. O operador anunciou:

- Deixei tudo preparado. Todas as informaes de que precisa esto aqui.

- Bom trabalho. Obrigado.
- No foi nada, Sr. Sato.

140

Teruo retornou  sua sala e estudou o impresso de computador com extrema
ateno. Todos os hobbies, preferncias e averses do sobrinho estavam
relacionados ali.
Masao gostava de hambrguer e pizza. Detetives particulares vigiariam esses
lugares. Masao gostava tambm de fliperama. As lojas de fliperama seriam
vigiadas. Gostava
de boliche. Sua foto seria distribuda em todas

as pistas de boliche. Adorava filmes americanos de cowboy e filmes italianos. Os
cinemas que exibissem tais filmes seriam investigados. Detetives particulares
ficariam
atentos em todos os aeroportos, estaes ferrovirias e rodovirias. No haveria
como Masao deixar a cidade. O computador o encurralaria.

Teruo encontrou dois itens muito interessantes

ao final do impresso. O alvo sentir uma presso crescente para passar
despercebido. Provavelmente tentar se esconder no bairro japons. Maior
probabilidade estatstica.
colnia japonesa em Greenwich Village. Caso o alvo consiga escapar de Nova York,
as maiores probabilidades estatsticas de destino sero Los Angeles ou

So Francisco.

Teruo refletiu sobre os dois ltimos itens por um longo tempo. Recostou-se na
cadeira, pensando, fazendo um jogo de xadrez mental com Masao.

 - 141

Imaginou-se na posio de Masao. Se fosse Masao, qual seria seu prximo
movimento? Como sairia de Nova York? E, subitamente, Teruo encontrou a resposta
que procurava.
Era muito simples. Ajudaria Masao a escapar.

No havia mais qualquer lugar em que Masao pudesse se esconder. A busca por ele
concentrava-se em Nova York. Masao sabia que precisava encontrar uma maneira de
deixar
a cidade, o mais depressa possvel. Pensou no detetive que invadira o
apartamento dos Doi, e sentiu horror por ter envolvido Sanae e os pais em seu
problema. Sanae
no tinha a menor idia de quem ele era, mas ainda assim se empenhara em ajud-
lo. Masao no esperara para ouvir toda a conversa entre Sanae e o detetive. O
instinto
lhe dizia que tinha de sair dali depressa, e usara a escada de incndio. No
ousara voltar a seu hotel. A busca se con
centraria naquele bairro. Seria muito fcil descobri-lo. Como um japons podia
se esconder num bairro de brancos? E, de repente, Masao, percebeu o que tinha de
fazer.
Iria para o distrito japons de Greenwich Village.

142

Pegou o metr e ficou desagradavelmente surpreso com o barulho, a sujeira e a
agressividade. Em Tquio, o metr era limpo e sossegado, os passageros bem-
educados.
O trem parou na estao de Greenwich Vllage e Masao saltou. Sanae mencionara o
distrito japons do Village mas Masao no sabia onde ficava. Deteve um
entregador
numa

bicicleta e disse:

- Com licena. Estou procurando o distrito japons. Pode me ajudar?

O garoto respondeu:

- Claro. Basta seguircincoquilmetrosnestadireoeviraresquerdaatalcanara
Bleeker Street.
O garoto se afastou no instante seguinte, sem

que Masao tivesse entendido o que dissera. Estava parado na frente de uma banca
de jornal. Procurou at encontrar um guia das ruas de Nova York. Precisou de um
momento
apenas para descobrir o que queria e partiu.

Foi andando pela Rua 10, avistou placas em japons e comeou a se sentir mais
tranqilo. No se destacaria tanto ali.

 verdade que Teruo imaginaria que ele viria para c, onde se sentiria mais
seguro. Mandaria homens revistar os hotis e penses, circular pelas ruas,  sua
procura.
Procurariam em lanchonetes que vendessem hambrgueres, em pizzarias, em

 143

cinemas que exibissem filmes italianos. S que Masao no permitiria que o
encontrassem com tanta facilidade. Seria mais esperto do que Teruo. Ficaria no
Village,
mas em lugares em que Teruo no pensaria em procur-lo.

Masao continuou a andar pelas ruas, passou por lanchonetes e pizzarias, por
lojas de flipera
ma. No entrou em nenhuma. Parou numa delica
tessen, comprou alguns sanduches, levando-os num saco de papel pardo. Passou
por cinemas que exibiam filmes americanos de cowboy, e outros apresentando
filmes italianos.
Continuou a andar, at encontrar um pequeno cinema na Bleeker Street, que
funcionava a noite inteira, com um filme francs em cartaz. Masao olhou ao
redor, para
se certificar de que ningum o observava, depois comprou uni ingresso e entrou
no cinema. No entendia uma s palavra de frances, mas era essa a sua segurana.
No
o procurariam ali. Sentou-se para assistir ao filme, sem compreender nada, e
comeu os sanduches. Era uma sesso dupla, e quando terminou um filme, teve
incio o
outro. Masao pegou no sono. A noite era o momento mais perigoso, porque havia
poucas pessoas nas ruas. Durante o dia podia se fundir na multido.

Despertou pela manh, com cibras. Na tela,

144

o mesmo homem fazia amor com a mesma mu
lher. Masao teve a impresso de que os franceses s pensavam em amor, e isso o
lembrou de Sanae. Algum dia, quando fosse seguro, telefonaria para agradecer o
que
Sanae fizera por ele.

Masao saiu para a rua, piscando  intensa claridade do sol. Havia muitas pessoas
andando pelas caladas, e ele seguiu no fluxo, sempre atento aos guardas. Sabia
que no poderia permanecer naquela rea por muito tempo, pois seria perigoso
demais. tinha certeza de que o tio mandara vigiar os aeroportos, estaes
ferrovirias
e rodovirias. Portanto, precisava encontrar outro meio de deixar a cidade.
Ouvira dizer que s vezes havia pessoas que publicavam anncios procurando
algum que
guiasse seu carro atravs do pas. Se encontrasse uma pessoa assim, seria a
maneira perfeita de escapar de Nova York.

Foi at a banca de jornais na esquina, comprou o Daly News e o O.C.S. News, o
jornal japons. Entrou numa lanchonete e sentou-se para ler os anncios
classificados.
Nada encontrou no Daily News, mas no jornal japons deparou com um anncio que
fez seu corao parar por um instan
145

te: Japonesa idosa procura rapaz que a leve de carro at Los Angeles. 7bdas as
despesas pagas. Era a oportunidade que esperava. A perspectiva de chegar a Los
Angeles
e a Kunio Hidaka proporcionou uma sbita esperana a Masao. Recortou o anncio
com todo cuidado, consultou o guia de Nova York que comprara e descobriu a
localizao
da rua indicada no anncio.

Comeou a andar na direo do local. Sentia a maior alegria, convencido de que a
mulher o aceitaria. Provavelmente era doente e idosa. Ele

a levaria s e salva a Los Angeles. Depois disso, cuidaria de seus prprios
problemas. Faria o tio pagar pela coisa terrvel que tentara fazer com ele e com
as Indstrias
Matsumoto. Nem que fosse a ltima coisa que fizesse, haveria de vingar a honra
da famlia.

Dez minutos depois, Masao descobriu-se diante de um velho prdio de
apartamentos. Consultou outra vez o anncio classificado. Apartamento 113. Masao
olhou para suas
roupas, Estavam amarrotadas de dormir no cinema durante a noite inteira, os
sapatos empoeirados. Limpou-os na cala, respirou fundo e entrou no prdio,
sentindo
um grande exeitamento. A mulher tinha de contrat-lo!

Sua vida dependia disso. Ficou parado na frente do apartamento 113 por um longo
momento, de
146

pois bateu na porta. Foi aberta por uma japonesa idosa, vestindo um quimono
tradicional.

- O que deseja? perguntou ela.

- Vim aqui por causa de seu anncio.

A mulher estudou-o devagar, antes de dizer: Ah, sim... Entre, por favor.

At agora, tudo bem! Masao entrou no apartamento.

- Procura por algum para lev-la de carro  Califrnia?

A velha acenou com a cabea.

- Isso mesmo. Tenho um carro, mas no pos
so guiar.

- Pois eu posso ajud-la. Espero que me aceite para guiar seu carro at Los
Angeles.

E foi nesse instante que uma voz de homem disse, por trs de Masao:

-  muita gentileza sua, garoto.

Masao, reconheceu a voz, sem qualquer dvida. Ouvra-a pela ltima vez no
apartamento de Sanae, quando fugira. Virou-se e deparou com Sam Collins. O
detetive particular
empunhava um revlver e o apontava para Masao.

- Mas como ... ?

Com uma sbita vertigem, Masao compreendeu que cara numa armadilha. Teruo, fora
mais esperto do que ele! O tio conclura que Masao

147

tentaria desesperadamente sair de Nova York, e saberia que todos os caminhos
normais seriam bloqueados. A nica fuga possvel seria num automvel, e como
Masao no
dispunha de qualquer documento de identificao, no poderia alugar um; assim,
teria de procurar outros meios. Teruo providenciara esses meios. Publicara o
classificado
no 0. C.8. News, o nico jornal japons da cidade de Nova York, atendendo a
todas as ne
cessidades de Masao. E Masao mordera a isca.

Censurou-se por ter sido to ingnuo, mas agora era tarde demais. Fitou nos
olhos o detetive particular e disse:

- No fiz nada de errado. A morte do homem

foi aci...

- Cale-se!

Com a arma na mo direita, Sam Collins enfiou a esquerda no bolso, tirou uma
nota de cem dlares e entregou  velha.

- Fez um bom trabalho. Obrigado. - Ele balanou a cabea para Masao. - Vamos
embora, filho.
- Escute-me, por favor!

- No me crie problemas. Voc est preso.
- Vai me levar para a delegacia?

- Isso mesmo. - Sam Collins sacudiu a arma

na direo da porta. - Vamos andando.

A velha virou-se, como se pudesse se dissociar

148

do que estava acontecendo pelo fato de no olhar. Masao no podia culp-la pelo
que fizera. Cem dlares deviam ser uma fortuna para a velha, e ela no tinha
idia
do perigo em que o lanara, No era parte da conspirao. Apenas fora usada.

Sempre apontando a arma para Masao, Sam Collins abriu a porta. Saram. O
detetive manteve a arma escondida dos transeuntes. Havia um

velho Chevrolet verde estacionado junto ao meiofio. O detetive abriu a porta no
lado do passageiro.

- No tente coisa alguma! - advertiu ele. - No faz diferena para mim se o levo
 delegacia vivo ou morto.  procurado por homicdio. Est me entendendo?

Masao acenou com a cabea. Compreendia muito bem. Apontando a arma, Sam Collins
sentou-se ao volante e gesticulou para que Masao

entrasse no carro.

- Aprecio um garoto obediente. - Sam Collins ligou o carro. - E agora quero que
voc relaxe. Temos uma longa viagem pela frente.

Portanto, no iriam para a delegacia! O detetive o levaria de volta para o tio.
A mente de Masao disparou. Sabia que, se tornasse a cair nas mos de Teruo, no
escaparia
vivo.

- No sei quanto meu tio est lhe pagando,

149

mas posso pagar muito mais. Sou o proprietrio da companhia Matsumoto.

O detetive soltou uma risada.

 engraado. Seu tio acha que ele  o dono. Se me ajudar, eu posso...

Esquea! No sei o que est acontecendo e nem quero saber. Fui contratado para
encontrlo e lev-lo de volta, e  isso o que vou fazer. Pode ser da maneira
fcil,
ou da maneira difcil. Se tiver de ser da maneira difcil, voc sair machu
cado. A deciso  sua.

- Est no lado errado insistiu Masao. - Solte
me, e eu o tornarei rico.

Sam Collins sorriu.

- J sou rico.

E era mesmo. Na segunda reunio, Teruo dissera:

- A gratificao de cinqenta mil dlares  apenas um comeo. Traga meu
sobrinho, e ser

um homem rico.

Teruo prometera uma fortuna, e agora que essa fortuna se encontrava em seu
poder, no a deixaria escapar. Teria dinheiro suficiente para se aposentar,
nunca mais
trabalhar, pelo resto de sua vida. Sempre desejara viver na Flrida, passeando
de barco, pescando. Podia levar a esposa, ou a amante, talvez nenhuma das duas.
Ou
150

vira dizer que havia uma abundncia de lindas mulheres na Flrida. Um homem s
precisava de dinheiro. E dali por diante teria mais dinheiro do que conseguiria
gastar.

Ele olhou para o rapaz dejeans e camisa suja, e pensou: Olhe s quem me diz que
estou no lado errado! Tinha de tirar o chapu para Teruo.
O japons era mesmo esperto. Soubera exatamente como preparar a armadilha. O
detetive inclinou-se pela frente de Masao, abriu o portaluvas. 'ftrou uma
garrafa de
usque, abriu-a, tomou um trago. Bem que merecia.

Masao mantinha-se em silncio. O detetive

quase sentia pena do garoto. Mas o azar de Masao era a sorte de Sam Collins. Ele
tomou outro

trago da garrafa, ofereceu a Masao.

- Tome um gole. Vai relax-lo.
- No, obrigado.

Sam Collins deu de ombros, indiferente, tornou a guardar a garrafa no porta-
luvas.

- Voc deve ter feito alguma coisa para deixar seu tio furioso, garoto.

Masao no respondeu. Ora, no  mesmo da minha conta, pensou o detetive. Meu
trabalho vai terminar quando o entregar. Ele pensou no polpudo cheque que
receberia,
no pde conter um sorriso. Nem mesmo seria em cheque. Em

151

dinheiro. Sem imposto de renda a pagar. Em vez da Flrida, talvez fizesse uma
viagem s ilhas dos Mares do Sul. Diziam que todas as mulheres ali eram lindas e
disponveis.
Dinheiro. Era esse o segredo. O dinheiro transformava um homem em rei. Ganhara
um bom dinheiro durante toda

a sua vida, mas aquilo era a sorte grande com que sempre sonhara. A chave do
cofre. Sam Collins tornou a olhar para Masao e se perguntou em que o garoto
estaria
pensando.

Masao pensava em escapar. Sabia que seria impossvel persuadir o detetive a
ajud-lo.
tinha de encontrar outro meio. J fora advertido que Collins no hesitaria
em bale-lo, se tentasse fugir. Era at provvel que se tornasse um heri por
matar um assassino fugitivo. Masao pensara em saltar do carro, mas o detetive
continuava
a lhe apontar o revlver, enquanto guiava s com a outra mo. Poderia atirar em
Masao antes que passasse pela porta.

Masao olhou pela janela empoeirada do carro. Uma placa com uma flecha apontando
para a frente dizia Ponte George Washington. Depois que atravessassem a ponte,
Masao
sabia que no

152

teria mais qualquer chance, pois entrariam na via expressa para o norte do
estado, e no haveria paradas. A distncia, Masao divisou a gigantesca Ponte
George Washington,
cruzando o majestoso Rio Hudson. Dispunha de cerca de trs minutos para formular
um plano de fuga. Avaliou o detetive, especulando se haveria alguma
possibilidade
de domin-lo, mas instintivamente compreendeu que no havia nenhuma. Mesmo sem a
arma, no teria a menor possibilidade contra o homem poderoso sentado ao seu
lado.
Aproximavam-se de um sinal de trnsito verde, prestes a passar para vermelho.

Collins comeou a calcar o acelerador, a fim de passar pelo cruzamento antes que
o sinal mudasse, mas um carro da polcia surgiu ao lado. O detetive pisou no
freio,
parou no sinal. No tem sentido me meter numa encrenca agora, pensou Sam
Collins. No quando me encontro tao perto deficar rico.

Masao tambm vira o carro da polcia, com dois guardas, parado no sinal, do lado
de Sam Collins. Por um instante desesperado, sentiu-se tentado a gritar por
socorro.
Mas a polcia estava  sua procura. Os guardas tambm eram inimigos. tinha de
pensar em alguma coisa, e pensar depressa. O sinal mudaria a qualquer segundo.

153

E, de repente, uma idia lhe ocorreu. Virou-se para o detetive e disse:

- Posso mudar de idia sobre aquele trago? Bem que estou precisando.

- Claro. Como eu disse, servir para deix-lo

relaxado. Sirva-se.

Masao abriu o porta-luvas, tirou a garrafa, abriu-a. Levantou a garrafa, de olho
no sinal. Contraiu-se todo quando o sinal comeou a passar de vermelho para
amarelo
e verde. O detetive pisou no acelerador. Tudo agora dependia de calcular o
momento exato. Assim que o carro comeou a avanar, Masao ergueu a garrafa por
cima da
cabea de Sam Coltins e despejou o usque. O detetive virou o rosto para ele,
surpreso.

- Ei, o que pensa que est fazendo?

Ao erguer o brao para tornar a garrafa de Masao, retirou a mo do volante por
um instante. Foi ento que Masao segurou o volante com as duas mos e virou-o
com
toda a fora para a esquerda, jogando o sed na traseira do carro da polcia. Os
dois guardas olharam para Sam Collins. O motorista praguejou e gritou:

- Pare junto da calada!

Sam Collins tremia de raiva. Resolveria aquele problema, tornaria a partir com o
garoto e lhe aplicaria
uma boa surra, para que aprendesse a

154

lio. Ele parou o carro no meio-fio, observou os guardas saltarem e se
aproximarem, com expresses sombrias.

- Saia! - ordenou um deles.

Sam Collins saltou do carro.

- Sinto muito, seu guarda. Foi um acidente. Terei o maior prazer em pagar os
prejuzos. O volante escorregou da minha mo e...

Os vapores do usque que Collins exalava fizeram com que os olhos do guarda
lacrimejassem. Ele virou-se para o parceiro.

- Parece que temos um motorista bbado aqui.
- Est enganado - protestou Sam Collins. - No estou bbado. O garoto apenas fez
uma brincadeira. Despejou usque em cima de mim.

- Que garoto?

Sam Collins virou-se para apontar para o interior do carro.

Masao desaparecera.


uando a vida  serena e suave, o Tempo  um amigo. Quando a vida fica repleta de
problemas, o Tempo se torna Q

um inimigo.

O Tempo se tornara inimigo de Masao. Subestimara o tio. Pensara que Teruo o
deixaria em paz, desistiria da caada, mas agora compreendia que isso jamais
aconteceria.
Teruo no descansaria enquanto Masao no estivesse morto. Naquele momento, devia
estar sentado em algum lugar, num escritrio ou numa fbrica, talvez na casa 
beira
do lago, trabalhando em sua estratgia, a sangue-frio. Quando jogavam xadrez,
Teruo sempre vencera Masao. Mas desta vez a aposta era diferente: a vida de
Masao.

No momento em que o Chevrolet batera no carro da polcia, Masao sara pela outra
porta e se afastara apressado, na direo oposta. Foi andando s cegas, sem
saber
para onde ia, querendo apenas aumentar a distncia que o separava do capanga do
tio. Sua vontade era correr, mas receava atrair ateno. Numa reao instintiva,
seguiu para o centro de Manhattan, onde as multides eram mais densas, onde
seria mais difcil ser descoberto. Mas no tinha destino. No podia voltar a
Greenwich
Village. No podia voltar a seu hotel. No havia qualquer lugar para onde

158

pudesse ir. Assim que Teruo soubesse que Masao escapara, as ruas ficariam
fervilhando de homens  sua procura. Teruo tinha toda a fortuna Matsumoto  sua
disposio,
e gastaria cada centavo necessrio para remover o ltimo obstculo em seu
caminho. Masao enfrentava a polcia, toda a fora de segurana das Indstrias
Matsumoto,
e nem dava para calcular quantos detetives particulares. Nunca se sentira to
sozinho em sua

vida. No, no estava totalmente sozinho. Havia Kunio Hidaka, em Los Angeles.

Maao pensou nos bons tempos qu@ haviam partilhado, ao longo dos anos. O pai de
Masao confiava em Hidalia. Mas como alcan-lo? No podia explicar a situao
pelo telefone. Precisava de alguma forma se encontrar com ele pessoalmente.

- Ei, veja por onde anda! - disse uma voz. Masao levantou os olhos para
constatar que esbarrara num porteiro, com um casaco cinza comprido.

- Desculpe - murmurou ele.

O porteiro apitava por txis, para uma fila de pessoas  espera. Masao descobriu
que estava parado na frente do Hilton Hotel, na Avenida das Amricas. Olhou ao
redor e se fixou numa coisa.

No foi no hotel, mas em algo parado na frente.
159

Era um enorme nibus da Greyhound, com um letreiro que dizia Los Angeles.
Algumas pessoas embarcavam no nibus, mas o que atraiu a ateno de Masao foi o
fato de
todos os passageiros serem japoneses! Era uma excurso japonesa, a caminho de
Los Angeles. Uma oportunidade perfeita, e Masao compreendeu que no podia perd-
la.
Ficou parado ali, observando.

O motorista se encontrava ao lado da porta aberta, conferindo os nomes numa
lista,  medida que cada passageiro entrava no nibus e ocupava seu lugar. Masao
precisava
encontrar uma maneira de embarcar naquele nibus. Mas como? Era evidente que se
tratava de uma excurso particular, e seu nome no constava da lista. Masao
pensou
por um momento, depois entrou apressado no saguo do Hilton Hotel.

Era um saguo enorme e barulhento, com vrios turistas entrando e saindo,
hspedes a caminho de encontros marcados, pessoas sentadas nas poltronas 
espera de outras.

No meio do saguo havia um mar de malas, pertencente ao grupo da excurso, cada
uma exibindo uma etiqueta com o nome do dono. Quatro carregadores as levavam
para
o nibus e guardavam no compartimento de bagagem. Ainda restava uma dzia de
malas. A mente de Masao tra
160

balhava depressa. Aproximou-se das malas, abaixou-se, leu a etiqueta de
identificao em uma delas. Dizia Yoshio Tanaka. Masao empertigou-se, atravessou
o saguo,
at a parede em que havia uma fileira de telefones internos. Pegou o telefone na
cabine da extremidade. Uma telefonista atendeu.

- O que deseja?

- Poderia fazer o favor de chamar o Sr. Yoshio Taraka?

- Um momento, por favor.

Poucos segundos depois, uma voz metlica saiu pelo sistema de alto-falantes:

- Sr. Tanaka, Sr. Yoshio Tanaka, atenda por favor o telefone interno!

Masao esperou. Um homem baixo e rolio encaminhou-se apressado para o telefone,
a trs

cabines da sua.

- Al?

Masao virou-lhe as costas e baixou a voz ao dizer:

- Sr. Tanaka?

- Sou eu.

- Sr. Yoshio Tanaka?

- Isso mesmo. Quem est falando?

- Sou o telefonista internacional, Tem uma li
gao do Japo. Haver uma pequena demora.

 161

Pode fazer o favor de desligar e esperar junto ao telefone?

- Mas meu nibus j vai...

- A ligao ser completada a qualquer momento.

 do meu escritrio? , sim, senhor. Esperarei.

Obrigado. Masao reps o fone no gancho. Passou por Tanalia, saiu apressado do
hotel, seguiu direto para o nibus. Os carregadores acabavam de guardar todas as
malas
no compartimento de bagagem. Os ltimos passageiros embarcavam e o motorista
conferia seus nomes.

A situao era perfeita.

Os homens de Teruo procurariam Masao nos nibus das linhas regulares, mas
ningum pensaria em verificar um nibus de excurso. Masao

aproximou-se da porta do nibus. O motorista levantou os olhos.

- Seu nome?

- Meu nome  Yshio...

E nesse instante, pelo canto dos olhos, Masao avistou o corpo baixo e rolio
correndo para o nibus. Ficou desesperado. Tanalia passou por ele, gritando para
o motorista:

162

- Yoshio Tanaka!

O motorista assinalou seu nome na lista. Ma
sao permaneceu na calada, atordoado, observando o pequeno japons embarcar.
O motorista sentou-se ao volante e um minuto depois o nibus desapareceu numa
esquina.

A frustrao de Masao era profunda. Chegara to perto de escapar! Tudo parecia
contra ele. Se ao menos contasse com algum a quem pudesse recorrer, com quem
pudesse
conversar.. Desejou poder ver Sanae. Pensou como ela se mostrara maravilhosa,
como o acolhera, mentira ao detetive para proteg-lo. Masao sentiu uma tremenda
tristeza.
Um guarda se aproximava do hotel. Parecia estar  procura de Masao... ou seria
apenas sua imaginao? No podia correr o risco. Sem pressa indevida, ele virou-
se,
tornou a entrar no saguo apinhado do Hilton. Atravessou-o, saiu por uma porta
lateral. Precisava desesperadamente de um abrigo. S que no havia nenhum.

Masao almoou tarde, num restaurante alemo na Rua 96. Detestava comida alem, e
fora por isso que escolhera aquele restaurante. Conhecia o raciocnio do tio a
esta
altura. Teruo sabia de seus hbitos, e mandaria homens a sua procura

 - 163

nos lugares provveis. Dali por diante, Masao tencionava ir aos lugares
improvveis. Evitaria deixar uma trilha que o tio pudesse seguir. Ocupou uma
mesa de canto,
comeu bratwurst, que detestou, pensando em seu prximo movimento. O problema
ainda era o mesmo: escapar de uma cidade que estava com todas as sadas
fechadas.

Por acaso olhou pela janela no momento em que passava um enorme caminho-
frigorfico e sentiu uma comicho por todo o corpo. Ainda tinha uma chance!

Uma hora depois, Masao, estava parado nas sombras de um terminal de cargas
rodovirias, perto das docas de Nova Jersey, observando a atividade ao redor.
Havia pelo
menos cinqenta caminhes enormes no ptio sendo carregados, preparandose para a
partida. A variedade de mercadorias era incrvel. Os caminhes transportariam
mveis,
produtos qumicos, alimentos, suprimentos mdicos. Havia tambm livros,
aparelhos de televiso, madeira, roupas. Aqueles caminhes constituam o sangue
vital da
Amrica, levando mercadorias para todos os cantos do pas, cidades grandes e
pequenas, fazendas e portos martimos.

Masao se mantinha oculto de todos, observando os procedimentos. Era sempre a
mesma coisa.

164

Depois que os caminhes eram carregados, fechavam e trancavam com cadeado as
portas traseiras,
O motorista sentava-se ao volante, com o ajudante ao lado, e o caminho partia
para seu destino, Era fascinante. Depois de verificar tudo de que precisava,
Masao
deu uma volta pelo ptio, fazendo perguntas casuais. Abordou um dos homens que
carregavam um caminho.

- Com licena, senhor. Para onde vai esse caminho?

- Connecticut.

Direo errada.

- Obrigado, senhor.

Masao aproximou-se de outro caminho.

- Com licena, senhor. Para onde vai esse caminho?

- Boston.

Perto demais. Masao continuou a circular

entre os motoristas, fazendo perguntas, obtendo respostas. Os caminhes iam para
o Maine, Filadlfia, Washington ou Delaware. Nenhum desses lugares servia.

Masao j estava quase desistindo quando alcanou um enorme caminho, carregado
de mveis. Meio desanimado, ele perguntou:

- Com licena, senhor, mas pode me informar para onde vai esse caminho?

 - 165

O homem resmungou, sem levantar os olhos: Los Angeles.

E Masao sentiu um novo fluxo de adrenalina.

Los Angeles! tinha de encontrar unia maneira de embarcar naquele caminho. Ele
se afastou, observou os homens ajeitarem os mveis dentro

J     do caminho. J estava quase lotado. Quando ficasse cheio, no restaria um
palmo sequer de espao de sobra. Se Masao conseguisse entrar ali, o aperto
seria quase insuportvel. Mas no era isso que o preocupava. O problema era que
a viagem atravs da Amrica levaria seis ou sete dias, com ele trancado no
interior
do caminho, sem comida, sem gua.

No mporta, refletiu Masao. Nada importava, exceto chegar a Los Angeles, onde
poderia entrar em contato com Kunio Hida.ka e obter ajuda.

Havia quatro homens carregando o caminho, transportando os mveis pesados em
carrinhos, para depois empurr-los por uma rampa na traseira do caminho. Masao
compreendeu
que teria de calcular o momento com absoluta preciso. Se entrasse no caminho
cedo demais, seria visto e apanhado. Se esperasse um instante alm do tempo, as
portas
seriam trancadas antes que pudesse embarcar.

Observou um grupo de caminhoneiros sair de

166

um restaurante no outro lado do ptio, e o mero pensamento de comida deixou-o
com gua na boca. Naquele momento, teria devorado at a comida alem. Masao
tornou
a olhar para o restaurante. Levaria apenas um instante para entrar, pedir
sanduches e refrigerantes para viagem. Resolveria o problema da fome e sede na
longa viagem
atravs do pas. A tentao era forte demais para resistir. Masao comeou a
correr para o restaurante, no ousando perder um momento sequer.
O caminho ficaria pronto
para a partida a qualquer minuto. Chegou ao restaurante e entrou apressado. Era
barulhento e enfumaado, com caminhoneiros sentados s mesas e junto a um balco
comprido. Masao foi at o balco, ficou de p ali, nervoso demais para sentar.
Uma garonete atendia a cerca de quinze fregueses, flertando e conversando.
Masao
tentou atrair
lhe a ateno. Ela tornou a encher de caf a xcara de um fregus e depois se
aproximou de Masao.

- O que vai querer?

Masao no pensara nisso. Deu uma olhada no quadro grande com o cardpio, por
cima do balco.

- Eu gostaria de um hambrguer.

- Certo.

       167

A garonete anotou num bloco, comeou a se
7

afastar.

       E um sanduche de queijo.
1         -Certo.

Ela fez outra anotao.

Um sanduche de galinha. Desta vez a mulher fitou Masao.

- Isso  tudo?

- No, madame.

Masao fez alguns clculos rpidos. Seis ou sete dias. Duas refeies por dia
deveriam ser suficientes. Tornou a examinar o cardpio.

- Um sanduche de salada de ovo, de rosbife, de presunto com po de centeio, de
peru, de queijo suo, de salame, de bacon e tomate, e de salsicho.

A garonete estava boquiaberta.
- Alguma coisa para beber?

- Quero, sim, madame. Uma dzia de CocaColas.

Ela sorriu.

- Voc deve ter um apetite e tanto.

Masao observou-a ir at o balco que dava para a cozinha e transmitir o pedido.
Pelo menos agora no sentiria fome e sede durante a viagem. o cheiro de comida
ao
redor deixava-o ainda mais faminto, e ficou tentado a pedir um pedao de

168

torta e caf, mas no podia desperdiar um minuto sequer. Torceu para que se
apressassem com seu pedido.

Estava perto da caixa registradora e podia ouvir os caminhoneiros conversando,
enquanto paga
vam suas contas.

- Para onde voc vai, Charly?

- Tulsa. Entregar algumas peas de perfurao de petrleo.

- Acabei de chegar de l. O tempo estava horrvel.

- J comprou seu novo caminho, Tony?

- Ficou para o prximo ano. A esposa teve de fazer uma operao.

Muito azar.

 mesmo. Quem pode se dar ao luxo de ficar doente hoje em dia?

Masao observou a garonete anotando pedidos, somando contas. Depressa, pensou
ele. Depressa! Como se lesse seus pensamentos, a garone
te anunciou:

Seu pedido  o prximo. ~ Obrigado.

E nesse momento, uma voz por trs de Masao, junto da caixa registradora,
comentou:

- J devem ter terminado de carregar a esta altura. Vamos cair na estrada para
Los Angeles.

169

Masao sentiu o sangue congelar. Virou-se para ver o motorista do caminho - seu
caminho
e o ajudante pagando suas contas.

- Vou assinar a nota de carga - disse o ajudante.

Masao olhou para o balco da cozinha, frentico. Podia ver seus sanduches j
embrulhados, mas no tinha tempo para esperar. Os dois caminhoneiros j passavam
pela
porta. Masao partiu atrs deles, apressado. A garonete gritou:
- Ei, seus sanduches!

Mas Masao j sara.

O caminho permanecia ali, e os ltimos mveis estavam sendo arrumados. A
qualquer momento as portas traseiras seriam fechadas e trancadas. Ele tinha de
se esgueirar
l para dentro. Mas havia homens por perto e o motorista conversava com eles.
No havia a menor poss
bilidade de Masao embarcar sem ser visto. Ele

pensou nas muitas frustraes por que j passara, em quantas vezes quase
conseguira escapar. E agora parecia que mais uma vez seria derrotado.

E foi nesse instante que houve um estrondo num caminho prximo, e todos se
viraram para

ver o que acontecera.

Um enorme lustre cara de um carrinho e se

espatifara em mil pedaos. O desafortunado car
170

regador responsvel pelo acidente se pos a praguejar, os outros carregadores e
motoristas o cercaram, rindo e zombando.
O corao de Masao disparou quando o seu
motorista se juntou ao grupo. Muito rpido, Masao avanou para o caminho
desprotegido. Olhou ao redor, para se certificar de que ningum o observava, e
depois pulou
para a traseira do caminho. Esguerou-se para o fundo, passando por cima de
cadeiras, mesas, abajures, poltronas.
O caminho era mais comprido do que Masao calculara.,
e s depois que se escondeu por trs de um sof enorme, l no fundo,  que se
sentiu seguro. Nunca o descobririam ali. Pensou ansioso em todos os sanduches e
re
frigerantes que deixara no restaurante. Mas agora era tarde demais para se
preocupar com isso.

Haveria de sobreviver. Era um Matsumoto.

Poucos minutos depois, Masao ouviu um estrpito alto, quando as portas foram
fechadas. Ficara trancado na escurido do interior do caminho.

Ouviu o motor pegar, sentiu o movimento quando o caminho partiu.

Estava a caminho de Los Angeles, Califrnia.

Ele sentava-se a uma mesa de um restau
taurante em Kioto, com uma linda toalha branca e pauzinhos dourados. O restauE

rante era grande, mas ele era o nico fregus. Reinava a paz e sossego, o nico
som era o tilintar de um carrilho de vento lfora. Um garom veio at sua mesa,
carregando uma enorme travessa, na qual havia um peixe.

Foi preparado especialmente para voc, anunciou o garom. Parecia delicioso, e
ele sentia a maiorfome. Levantou os pauzinhos, pegou um pedao de peixe, levou 
boca.
E nesse instante compreendeu que o peixe era um fugu, venenoso. Levantou os
olhos e descobriu que o garom era seu tio Teruo, sorrindo.

Saiu correndo do restaurante, foi parar nos jardins do Templo Kokedera.

Um sino repicou ao longe e Masao disse:  hora do almoo. Podemos ir para a
aldeia ago
ra, e comer.

No, no, advertiu o pai de Masao. A aldeia  perigosa para voc.  melhor
continuar aqui e passarfome.

Mas estoufaminto e sedento, pai.

A me de Masao estendeu alguma coisa, com as duas mos, e murmurou, Beba isto.
Era neve. Masao olhou ao redor, viu que se encontravam

174

nas montanhas nevadas japonesas, tudo coberto de neve, e comeou a tremer.

Masao despertou no frio do caminho, os dentes chocalhando, e lembrou o sonho.
Estava mesmo faminto e sedento. Mas pelo menos me encontro a caminho da
segurana,
refletiu. No importava quanto frio ou fome sentisse. Podia suportar. Resistiria
a qualquer coisa para derro
tar Teruo.

Masao nada podia fazer sobre a fome e a sede, mas podia se proteger contra o
frio. Rastejou pela escurido at encontrar uma manta grossa, que cobria uma
mesa.
Puxou-a, ajeitou-a em torno de seu corpo. Especulou por quanto tempo dormira,
que distncia o caminho j teria percorrido e onde se encontrava naquele
momento.
No sabia se era dia ou noite. Tentou recordar o que lera sobre a geografia
americana, A oeste de Nova York ficava a Pensilvnia, depois Ohio, Indiana e
Illinois.
E Illinois se situava a um tero do caminho para oeste dos vastos Estados
Unidos. Se sentia fome e sede agora, seria capaz de agentar o resto da viagem?
Teria de
faz-lo, porque as portas traseiras do caminho no seriam abertas at

que chegasse a seu destino, a cinco mil quilmetros do ponto de partida. Ficaria
trancado at l, onde ningum poderia descobri-lo.

175

O movimento indolente e ritmado do cami
nho fez com que Masao adormecesse de novo. Aconchegou-se na manta e sonhou.

Sonhou que voltara  casa de veraneio da famlia, em Karuizawa, procurava pelo
pai e a me... ele estava dentro do Kinkakuji, em Kioto, mas no os viu ali.
Procurou
na cmara principal do Templo Asakusa, em Tquio, e depois se descobriu num
barco pesqueiro, na ilha Yoron, cheio de sardinhas, percas, atuns, lulas,
caranguejos...

Sonhou com Sanae. Ela se postava parada na praia, no escuro, gritando para ele:
O inimigo est aqui. No deve deixar que o encontre ou ele o matar. E Sanaefoi
empurrada
para o lado, uma luzforte iluminou o rosto de Masao e uma voz de homem berrou:

- Saia! Sabemos que est a dentro!

E Masao tentou se esconder no barco, mas a voz continuou a gritar, a luz o
ofuscava. Abriu os olhos e percebeu no mesmo instante que no se tratava de um
sonho.

Havia um homem de p na traseira do caminho focalizando uma lanterna nos olhos
de Masao.

- Levante-se! E saia do caminho!

Masao piscou, atordoado. Sentou-se. As portas traseiras haviam sido abertas, e o
caminho

176

no estava em movimento. No era possvel que j tivessem chegado  Califrnia.
Algo sara errado? Como algum poderia saber que ele se escondia ali? Talvez o
tivessem
visto embarcar no

caminho, mandando um aviso  polcia, ou a seu tio. Masao sabia que desta vez
no teria como escapar. Lentamente, levantou-se, avanou para a sada, o corpo
dolorido,
com cibras. Reconheceu o homem como o motorista do caminho.

Masao saltou para o cho, olhou ao redor. Estavam num posto de pesagem de
caminhes,  beira da estrada. Havia um carro da polcia estacionado ao lado da
cabine
de controle.

- Como soube que eu estava no caminho? perguntou Masao.

- Matemtica, garoto - explicou o motorista.
- Os caminhes so pesados quando deixamos o ptio. E temos de parar nos postos
de pesagem do governo, ao longo da estrada, onde verificam se no transportamos
uma
carga pesada demais.

Ele apontou para a enorme balana em que o caminho se encontrava e acrescentou:

- Esta carga pesa setenta quilos a mais do que no momento em que deixamos Nova
Jersey. Fora descoberto por uma coisa to estpida

assim! Masao fechou os olhos por um momento, apertando com toda fora, sentindo-
se tonto, com

177

fome e com sede. Tornou a abrir os olhos, observou o carro da polcia.

 O que vai fazer comigo? Podia sentir que cambaleava.

- Ei, voc est bem? - perguntou o motorista.
- Estou, sim, senhor.

- Quando foi a ltima vez que comeu?

- Eu... no me lembro - respondeu Masao, sincero.

- Talvez seja melhor aliment-lo primeiro e depois decidir o que fazer com voc.
Passou dois dias trancado a dentro. -
O motorista estendeu

a mo. - Eu sou AI.

Masao apertou-lhe a mo.

- Eu sou Masao.

O motorista indicou seu ajudante.

- Este  Pete.

- Como vai, senhor?

- Antes de mais nada, voc vai se lavar - dis
se AI.

Seguiram para uma lanchonete enorme, em frente ao posto de pesagem. Masao se
surpreendeu ao descobrir como se sentia fraco. Tropeou, e AI ps a mo sob seu
brao,
para ampar-lo. Mesmo que quisesse, Masao no teria foras para sair correndo.

- O que voc fez  contra a lei comentou AI.

178

- Eu sei, senhor.

Masao especulou o que o motorista pensaria se soubesse que ele era procurado por
homicdio, e que havia provavelmente uma vultosa recompensa por sua captura.
Pensou
no carro da polcia, parado no outro lado da estrada, e estremeceu.

- Est com frio?

- No, senhor.

A sensao do sol era maravilhosa. Masao nem imaginara o quanto seria horrvel
ficar trancado no escuro, como um animal.

Havia muitos motoristas de caminho na lancho
nete, comendo e conversando, discutindo suas experincias na estrada.

AI levou Masao ao banheiro. Masao contem
plou-se no espelho e mal conseguiu se reconhecer. Estava imundo, o rosto magro,
encovado. Depois que ele se lavou, AI conduziu-o a uma mesa na lanchonete.
O cheiro
de comida deixou

Masao tonto.

Sentaram-se, pediram os pratos, e AI e Pete observaram Masao comer, atnitos.
Ele comeou com uma tigela grande de canja de galinha,

179

depois pediu um hambrguer e um prato grande de batatas fritas, seguido por um
cheeseburger e mais batatas fritas. Arrematou a refeio com torta de ma,
sorvete
e um bule de caf.

- Santo Deus! - exclamou AI, admirado. - E eu que pensava que os moto71stas de
caminho  que comiam demais!

- Tenho dinheiro suficiente para pagar minha comida - explicou Masao.

AI sorriu.

- Esquea. Quem  capaz de comer assim merece uma refeio grtis.

O motorista acendeu um cigarro, estudou Masao. o rapaz sentiu que ficava tenso.
Sabia o que viria agora. AI perguntou, a voz suave:

- De quem est fugindo, garoto?

Masao correu os olhos pela lanchonete, observando os corpulentos motoristas de
caminho sentados ali. Por um momento de angstia, acalentou a fantasia de
revelar
toda a verdade, contar a AI sobre Teruo, e a coisa terrvel que o tio vinha
tentando fazer. Depois, AI se levantaria, explicaria aos outros motoristas, e
todos viriam
em socorro de Masao, tratariam de ajud-lo a derrotar o tio. Em vez disso, Masao
balbuciou:

-Eu... estou fugindo da escola. Vou visitar um amigo em Los Angeles.

180

Os dois homens observavam-no, procurando decidir o que fazer com ele. Masao
permaneceu imvel, mal se atrevendo a respirar. Se resolvessem entreg-lo 
polcia,
ele estaria perdido. Voltaria s mos do tio. Subitamente, AI soltou

uma risada.

- No o culpo, garoto. Tambm fugi da escola quando tinha a sua idade. E ganho
mais dinheiro como motorista de caminho do que a maioria dos doutores.

O corao de Masao disparou.

- Ento... vai me ajudar a chegar  Califrnia?
- Por que no?

E foi como se um peso gigantesco tivesse sido removido dos ombros de Masao.

- Muito obrigado! Onde estamos agora?

- Condado de Hoosier, Indiana. Chegaremos a Los Angeles dentro de trs dias. E
agora vamos levar o show para a estrada.

Ao final daquela tarde, no norte do estado de Nova York, na cidadezinha de
Wellington, o tenente Matt Brannigan se encontrava sentado  sua mesa,
examinando um relatrio
de assalto, quando um detetive entrou na sala e indagou:

- Tem um minuto, Matt?

181

Brannigan levantou os olhos, espreguiou-se. Estava de servio desde as oito
horas daquela manh, sentia-se exausto, ansioso em voltar para casa.

- No pode esperar at amanh, Jerry? Cathy vai me matar se eu me atrasar de
novo para o jantar.

O detetive hesitou.

- Claro. Voltarei a procur-lo pela manh. Ele virou-se para sair.

- Espere um instante - disse Matt Branngan.
- Qual  o assunto?

- Lembra daquele jato Silver Arrow que caiu aqui perto, h cerca de duas
semanas?

O tenente Brannigan recordava muito bem. Quatro pessoas haviam morrido. Yoneo
Matsumoto, a esposa e os dois pilotos.

- Claro que lembro. O que h com ele?
- Parece que no foi um acidente. Branningan ficou aturdido.

- Como assim?

- Acabamos de receber um relatrio preliminar da Administrao Federal de
Aviao. Os tanques de combustvel estavam cheios de gua. Aquelas pessoas foram
assassinadas.

Matt Brannigan sentiu um calafrio sbito per
correr seu corpo.

182

- Isso  definitivo?

- No h mais qualquer dvida. Algum sabotou aquele avio. Se os tanques de
combustvel no tivessem sido adulterados, o piloto teria escapado da
tempestade.

Jerry continuou a falar, explicando os detalhes do relatrio, mas o tenente
Brannigan j no escutava. Recordava o jovem Masao, ouvia a sua voz: Meus pais
morreram
num acidente de avio. Herdei a companhia de meu pai. Meu tio est querendo
tir-la de mim. Precisa me matar para conseguir isso.

Na ocasio, Brannigan tivera certeza de que era inveno de um adolescente
fugitivo, viciado em drogas, com problemas de famlia. Telefonara para o tio do
rapaz,
e vira o tio e o motorista levarem o rapaz. Sentira pena de Masao. Parecia um
rapaz simptico e inteligente.

Recordou sua surpresa mais tarde, quando Teruo ligara para dizer: Meu sobrinho
assassinou nosso motorista. A polcia precisa encontr-lo, antes que o garoto
mate
mais algum. Algo parecera errado naquele momento. O tenente Brannigan
orgulhava-se de ser um bom juiz de carter. Como poderia ter se enganado tanto
sobre o rapaz?
Mas fora investigar e acreditara na histria de Teruo Sato.

183

S que aquela nova informao mudava tudo. Se algum planejara a queda do avio,
tinha de haver um motivo. E no havia motivo maior do

que as gigantescas Indstrias Matsumoto. E se Masao estivesse dizendo a verdade?
Neste caso, Brannigan pusera em perigo a vida do rapaz.

Ele continuou sentado, arrumando mentalmente as peas do quebra-cabea.
Precisava de muitas respostas, e precisava depressa, Levantou os olhos para
Jerry.

- Quero que voc investigue as Indstrias Matsumoto. Quero saber quem tinha o
controle acionrio quando Yoneo Matsumoto era vivo e quem manda na companhia
agora.
Fale com o advogado da famlia. Quero as respostas na minha mesa pela manh.

Era noite, uma lua cheia amarela desfilava pelo cu, por cima da faixa de
estrada que se projetava sob as rodas do enorme caminho. Masao, sentado na
cabine entre
AI e Pete, observava as luzes

distantes das casas de fazendas.

- Ainda estamos em Indiana? - perguntou ele.
- Illinois. - Pete tirou um mapa bastante usado do porta-luvas. - Estamos aqui.
- Ele indicou

184

um ponto no mapa e acrescentou: - Vamos atravessar Missouri e Oklahoma, cruzar
este pedao do Texas, entrar no Novo Mxico, passar por Arizona, Nevada e
Califrnia.
So mais de trs mil quilmetros.

Masao fitou-o com os olhos arregalados.

- E podemos percorrer toda essa distncia em

trs dias?

- No se esquea de que mantemos o caminho rodando dia e noite.  por isso que
temos dois motoristas. Ns nos revezamos ao volante.

Masao tornou a contemplar a paisagem.

- Este  um pas grande, muito maior do que

o Meu.

Mas como meu pas  lindo!, pensou Masao. Montanhas cobertas de neve, lagos
cintilantes, rios e cachoeiras, Sentia saudade das flores de ce
rejeira, das pessoas sentadas sob as rvores, saboreando haname, sentia saudade
de passear por uma das mais lindas praias de Okinawa, junto com os amigos.
Queria
muito voltar para o Japo.

A nica questo era se voltaria vivo ou morto. E pensou em Teruo.

Naquele momento, Teruo pensava em Masao. O rapaz tornara a escapulir de suas
mos. Tornara
185

se um jogo de gato e rato, uma batalha de inteligncia entre os dois. Teruo
sabia que era apenas uma questo de tempo. Ao final, Masao seria capturado. E
punido.
Teruo virou-se para Nobuo Hayashi, o chefe de segurana das Indstrias
Matsumoto.

- O rapaz no pode ter desaparecido em pleno ar - disse ele. - Tem de ser
encontrado. E por ns. No quero o envolvimento da polcia americana. Foi um
erro da minha
parte ter metido a polcia no caso.  um problema de famlia.

- Eu compreendo, senhor.

- Faa qualquer coisa que for necessria. Contrate mais homens. Dobre a
recompensa. No poupe nada. Traga meu sobrinho para c.

O rosto de Teruo era uma mscara sinistra, os olhos pareciam lascas de gelo.

- Ele  perigoso. J assassinou uma pessoa. Se no puder ser capturado vivo...
ento traga-o morto.

O tenente Matt Brannigan passou uma noite irrequieta. Incapaz de dormir, saiu da
cama s trs horas da madrugada, tentando no despertar a esposa. Mas ela ouviu
o movimento e acendeu o abajur na mesinha-de-cabeceira.

186

- Qual  o problema, Matt? Indigesto?

- Estupidez. Posso ter mandado um jovem inocente para a morte. - Ele passou a
mo pelos cabelos grisalhos. -
O jovem tentou me explicar tudo, Cathy, mas no lhe
dei ateno. E, com isso, talvez o tenha entregado nas mos do homem que queria
mat-lo.

- No tem certeza?

- No. Saberei dentro de poucas horas. Mas a situao no me agrada. Se estou
certo, talvez o rapaz j tenha morrido a esta altura. E ser difcil para mim
conviver
com isso.

- Por que no tenta dormir um pouco? Est

lutando contra sombras.

S que as sombras no se dissipavam.

Quando o tenente Matt Brannigan entrou em sua sala, encontrou na mesa o
relatrio que pedira. Leu-o duas vezes... a primeira depressa, e a segunda bem
devagar, sem
perder uma nica palavra. Por mais incrvel que pudesse parecer, o rapaz dissera
a verdade. Herdara o vasto imprio Matsumoto. Mas, segundo o testamento, tudo
passaria
para o tio se ele morresse. Matt Brannigan j conhecera homens que matavam por
dez dlares,

 - 187

ou mesmo por uma garrafa de usque. No era preciso muita imaginao para
calcular o que um homem seria capaz de fazer para conquistar um imprio de valor
inestimvel.
Teruo Sato devia ter conhecimento do testamento desde o incio.

Tramara o acidente com o avio, prevendo que depois de liquidar Yoneo Matsumoto
seria fcil se livrar do filho. Com a ajuda de Brannigan, quase conseguira.
O rapaz
o procurara, em busca de socorro, e ele o entregara a seu inimigo. Agora, de
alguma forma, tinha de encontrar Masao e salv-lo. Se  que Masao ainda estava
vivo.
Essa era a primeira coisa que precisava descobrir. Ligou para a central de
computao da polcia, em Manhattan.

- Aqui  o tenente Matt Brannigan. Foi emitido um boletim de procura-se para um
certo Masao Matsumoto, um jovem japons de dezoito anos. Pode verificar se ele
j
foi cancelado?

- Espere um momento, tenente. - A telefonista voltou  linha um minuto depois. -
Ainda no, tenente.

- Obrigado.

Matt Brannigan desligou, com um sentimento de alvio. Se o boletim de procura-se
continuava em vigor, isso significava que Masao ainda no fora encontrado. Tinha
de descobri-lo antes de

188

Teruo Sato. Era uma corrida contra o tempo. Ele tocou a campainha, chamando seu
assistente. Traga-me tudo o que temos sobre o caso
Matsumoto.

Cinco minutos mais tarde, ele estava lendo o depoimento de Heller sobre Sanae
Doi.

Ao terminar, o tenente foi para seu carro e seguiu para a fbrica Matsumoto em
Queens.

Sanae no conseguira tirar Masao de seus pensamentos. Tinha certeza que Masao
lhe contara apenas
uma parte da verdade, e que ele se encontrava numa terrvel enrascada.
Sanae faria qualquer coisa para ajud-lo, mas agora ele desaparecera. Nem mesmo
sabia se Masao estava morto ou

vivo. Recordou como Masao se mostrara excita
do no jogo de beisebol, torcendo para os dois lados. Pensou em seu sorriso, como
ele era gentil.

- Sanae!

A voz arrancou-a do devaneio. Levantou os

olhos para deparar com o capataz, o Sr. Heller, parado  sua frente.

- Pois no, Sr. Heller?

- O Sr. Watkins quer falar com voc. Imediatamente.

- Est bem, senhor.

189

Sanae entrou na sala do gerente de pessoal, especulando sobre o motivo da
chamada. Havia outro homem na sala, algum que Sanae nunca vira antes.
Instintivamente,
ela percebeu que o homem era da polcia, e assumiu uma posio de cautela.
Watkins disse:

- Sanae, este  o tenente Brarmigan. Ele quer conversar com voc. Watkins
levantou-se. - Dei
xarei os dois sozinhos.

- Obrigado. - O tenente Brarmigan virou-se para Sanae. - Sente-se, por favor.

Sanae sentou-se, tentando disfarar seu nervosismo.

- Soube que voc e o jovem Masao eram amigos.

- No, senhor.

O tom de Sanac era firme. Matt Brannigan fitou-a com uma expresso ctica.

 mesmo? Trabalhavam juntos, no ? Sim, senhor.

No conversavam durante o trabalho?

No, senhor.

O detetive inclinou-se para a frente.

- Mas conversavam quando almoavam juntos,

todos os dias?

Portanto, ele sabia disso. O que significa que

a investigara.

190

- No sei nada sobre ele - insistiu Sanae, obstinada.

- Sanae, estou aqui para ajudar Masao. Acho que a vida dele corre perigo.

E o pei-igo vem de voc, pensou Sanae.
- Sabe onde ele est?

Sanae fitou-o e pde responder com a verdade:
- No, senhor. No tenho a menor idia. Matt Brannigan percebera desde o incio
que

a moa mentia. Mas agora sentiu que ela dizia a verdade, o que o deixou
preocupado. Sanae era sua nica pista. Se ela no sabia onde se podia encontrar
Masao, ento
no havia mais qualquer pista. Era bem provvel que Teruo tivesse uma chance de
encontrar o rapaz antes da polcia.
O detetive no queria nem pensar no que isso
significaria. Precisava encontrar um meio de persuadir a moa de que estava do
lado

de Masao.

- Ajudou-o a escapar, no  mesmo, Sanae?
- No, senhor.

- No est contando a verdade. O caixa entre
gou-lhe uma foto de Masao e voc tirou-o daqui antes que algum pudesse
identific-lo. Levou-o para sua casa. Um detetive particular chamado Sam Collins
foi procur-lo
e voc ajudou Masao a fugir.

191

Sanae contraiu os lbios, permaneceu calada. Ele estudou-a por um momento.

- Sabe quem  Masao? Ela acenou com a cabea.

- Seu nome completo  Masao Harada. Brannigan deixou passar.

- E sabe por que ele est fugindo?

- Sei, sim. Porque o pai desejava que ele voltasse ao Japo e Masao no queria.

Ento era essa a histria de Masao. O tenente

Brannigan tomou uma deciso rpida. No tinha provas do que ia dizer, mas sabia
que se no revelasse suas suspeitas jamais conseguiria a cooperao de Sanae.

- Seu nome verdadeiro  Masao Matsumoto.

Esta companhia tem o nome de seu pai.

Sanae se mostrou incrdula.

- Est querendo dizer que ele  da famlia Matsumoto?

 o filho.

No acredito...

Quero que me escute, Sanae. O pai de Masao foi assassinado. Masao herdou o
imprio Matsumoto.

Sanae o fitava cautelosa, tentando absorver o que ele dizia.

- H um problema. Se alguma coisa aconte
192

cer com o rapaz, o tio fica com tudo. Cinco pessoas j morreram. E acho que o
tio de Masao vem tentando assassin-lo.

- Oh, meu Deus!

Toda a cor se esvaiu do rosto de Sanae. Acredi
tava agora no policial. Ele no teria motivos para inventar uma histria assim.
Ela lembrou o que acontecera no dia em que Teruo Sato visitara a fbrica. Masao
escondera o rosto. Elesjforam embora?, perguntara ele. E Sanae tambm recordou
como Masao a levara embora do estdio

antes que o jogo de beisebol terminasse, quando os guardas comearam a vasculhar
as arquibancadas, e como fugira do detetive em seu apartamento. Subitamente,
tudo
fazia sentido.

- O tio conta com todo um exrcito de homens

 procura de Masao - continuou o tenente Brannigan. - Masao no tem a quem
recorrer. Se o encontrarem primeiro, Sanae, ele morrer.
O tio no vai se deter por nada.
Tenho de encontrar Masao antes, mas no sei onde procurar, No sei para onde ele
planeja ir ou...

- Califrnia.

Sanae levou a mo  boca. Nem sequer percebera que falara em voz alta.

- Que lugar da Califrnia?

Havia uma ansiedade na voz do policial que

 193

fez Sanae recuperar a cautela. E se apenas parte de sua histria fosse
verdadeira? E se ele esti
vesse do lado de Teruo, procurando Masao para entreg-lo ao tio?

- No sei - respondeu ela.

Sanae viu o desapontamento no rosto do tenente Brannigan.

- Masao no lhe deu qualquer indicao? Mencionou algum nome? Algum a quem
pudesse pedir ajuda?

Ele mencionara um nome. Seu amigo, Knio Hidaka. Sanae fitou o detetive nos
olhos.

- No, ele no mencionou ningum.

No deixaria que o policial a ludibriasse, convencendo-a a ajud-lo a capturar
Masao.
O tenente Matt Brannigan. suspirou.

-  uma pena. De qualquer forma, obrigado.
- Ele se levantou. - Se por acaso lembrar mais alguma coisa, telefone-me por
favor.

Ele meteu a mo no bolso.

- Aqui est meu carto.

Sanae guardou o carto no bolso do jaleco sem olhar. No tinha a menor inteno
de us-lo.


estamos chegando a Los Angeles anunciou AI.

Masao mal podia acreditar que E

se achava mesmo to prximo do seu destino. A viagem atravs do pas fora
fascinante. Era como o pai lhe dissera: a Amrica tinha cinqenta estados, e
cada estado
era como um pas diferente. Masao conhecera os portos de Nova York, as frteis
terras agrcolas de Indiana e filinois, as vastas plancies do Texas, o rido
deserto
do Arizona. A Califrnia era uma terra verdejante, cheia de frutas e flores,
fazendo Masao se lembrar do Japo.

Durante as duas ltimas horas, as fazendas e campinas haviam cedido lugar a
casas dispersas e fbricas, depois a pequenas cidades e comunidades suburbanas.
E agora
podia avistar os arranha-cus do centro de Los Angeles. No eram to
espetaculares quanto os de Manhattan, mas Masao teve a impresso de que a cidade
era mais limpa,
mais moderna.

Pela primeira vez desde que comeara seu incrvel pesadelo, Masao sentiu-se
seguro. Conseguira escapar do tio e da polcia em Nova York e chegar 
Califrnia. Kunio
Hidaka o ajudaria. Assim que ouvisse toda a histria, o Sr. Hidaka saberia o que
fazer.

198

Durante a viagem de seis dias, Masao passara a conhecer bem o motorista e seu
ajudante, AI e Pete. Ouvira falar de suas esposas e filhos, adquirira uma noo
da
vida do trabalhador americano. Os dois eram cordiais e generosos, francos e
simples. Masao tinha a impresso de que seriam bons amigos para se ter, mas
poderiam
se tornar inimigos implacveis. Haviam rido de algumas tentativas de Masao de
pronunciar certas palavras, mas nunca fora um riso desdenhoso.

- Voc tem de trabalhar os erres - comentara

Pete. - Faz com que soem como eles. Por exemplo, quando tenta dizer arroz, sai
como aloz.

Masao especulara como eles se sairiam se tentassem falar japons, mas dali por
diante procuraria ser mais cuidadoso na pronncia das palavras.

Uma coisa que Masao, no conseguira entender em seus novos amigos era a atitude
que assumiam em relao aos sindicatos. Pertenciam ao sindicato dos
caminhoneiros.

-  o sindicato mais poderoso do mundo - gabara-se AI. - Poderamos deixar este
pas de joelhos em vinte e quatro horas.

- E por que haveriam de querer fazer isso? indagara Masao.

199

-  apenas uma maneira de falar. O que estou querendo dizer  que nossos
empregadores tm de nos dar tudo o que pedirmos.

Masao tentara explicar a atitude dos trabalhadores no Japo.

-  como uma famlia. O trabalhador  bem
cuidado enquanto viver. Sabe que no ser dispensado. A prosperidade da
companhia  tambm a sua prosperidade. E ele se orgulha de seu trabalho.

- So modos diferentes para pessoas diferen
tes - ressaltara Pete,

E a conversa terminara por a.

 medida que se aproximavam dos prdios do centro de Los Angeles, AI comentou:

- Estarnos dentro do horrio.

O caminho deixou a estrada e virou na San

Pedro Street. Minutos depois, entraram num enorme terminal de carga. AI parou o
caminho suavemente, desligou o motor, Virou-se para Masao,
- Vai ficar bem, garoto?

- Vou, sim, obrigado. No terei mais problemas agora.

- No deixe que o peguem acrescentou Pete.
200

Masao ficou aturdido.

- Pegar-me?

- Para mand-lo de volta  escola.

- H... no vou deixar.

Ele esquecera a histria que lhes contara. Saltou da cabine.

- Desejo agradecer a vocs dois. Serei sempre grato.

Masao falava mais srio do que o motorista e seu ajudante jamais poderiam
imaginar. Era bem provvel que tivessem salvado sua vida. Masao gostaria de
poder demonstrar
sua gratido de uma forma mais apropriada.

- Se algum dia forem a Tquio, terei o maior prazer em receb-los.

Os dois sorriram ao pensamento daquele garoto pobre tentando lhes dar as boas-
vindas em Tquio.

-  muita gentileza sua - disse AI. Cuide-se, garoto.

- Farei o melhor possvel - prometeu Masao. Seria fcil agora. Ele conseguira
escapar.

A dez metros de distncia, um trabalhador japons descarregava aparelhos de
televiso Matsu
 201

moto de um caminho. Parou para observar Masao descer da cabine. Fitou-o por um
longo momento, depois tirou uma foto do bolso. Tornou a olhar para Masao, a fim
de
se certificar de que no estava enganado. Depois, encaminhou-se apressado para
um telefone pblico no escritrio. Discou para a telefonista e disse:

- Quero fazer uma ligao para Nova York, pessoa a pessoa, Sr. Teruo Sato...

Hollywood no era nem um pouco como Masao imaginara. Sempre pensara no lugar
como o auge do glamour. Era a terra de John Wayne, Humphrey Bogart, James
Cagney, Cary
Grant, Charlie Chaplin. A realidade foi um desapontamento.  verdade que
encontrou os nomes de artistas lendrios nas caladas da cidade. L estavam
Marilyn Monroe,
Greta Garbo, Clint Eastwood e Bruce Lee. Mas o Hollywood Boulevard era sujo e
malcuidado, margeado por pequenas lojas de fliperama, pizzatias, cabines de
astrologia
e bares ordinrios. Parecia uma verso barata do Ginza. Mas pelo menos no
haver ningum  minha procura aqui, pensou Masao.

Ele entrou numa drugstore em que havia uma

202

cabine telefnica e perguntou  moa atrs do balco:

- Com licena, mas pode me explicar como fao para descobrir o nmero de um
telefone?
- Disque Informaes. 411.

Simples. Como em nova York.
- Obrigado.

Masao entrou na cabine telefnica, discou 411.

Uma voz disse:

- Informaes. Posso ajud-lo?

- Pode, sim, obrigado - respondeu Masao. Preciso saber o nmero da fbrica
Matsumoto.

Fica em North Hollywood.

- Pode soletrar o nome, por favor?

Masao soletrou. Poucos momentos depois, a telefonista informou o nmero. Ele
desligou, esperou um instante, tornou a discar. Uma voz jovial atendeu:

- Bom dia. Indstrias Matsumoto.

Masao sentiu o corao disparar. Sentia-se bern

s de ouvir o nome.

- Bom dia - disse ele. - Eu gostaria de falar com o Sr. Kunio Hidaka, por favor.

- Vou fazer a ligao.

No instante seguinte, outra voz disse:
- Gabinete do Sr. Hidala.

Logo ele estaria falando com seu amigo.

203

- Eu gostaria de falar com o Sr. Hidalia, por favor.

- Sinto muito, mas o Sr. Hidaka viajou. Posso lhe ser til?

Masao sentiu um aperto no corao.

- Eu... Ele hesitou. No queria deixar recado com uma secretria. Tinha de
explicar tudo ao Sr. Hidalia pessoalmente. - Quando ele voltar?
- Deve chegar na sexta-feira.

Dali a trs dias!

- Pode me dar o telefone da casa dele, por favor?  muito importante.

- Lamento, mas no posso fornecer essa informao. Quer deixar algum recado?

- No. Eu... tornarei a ligar.

Masao saiu da cabine telefnica desconsolado.

Mais trs dias de espera. Depois de toda a sua expectativa, parecia uma vida
inteira. Aguardara ansioso o encontro com o Sr. Hidaka, para lhe contar o que
estava
acontecendo e acabar com o pesadelo. Mas no havia agora outra coisa a fazer
seno esperar. Teria de se forar a ser paciente. Enquanto isso, ficaria seguro
em Los
Angeles. Teruo ainda o procurava em Nova York. Arrumaria um quarto num pequeno
hotel e passearia pela cidade, at poder se encontrar com o Sr. Hidaka. Havia
duas
coisas em particular que

204

desejava fazer: conhecer a Disneylndia e visitar os estdios da Universal.

A cinco mil quilmetros de distncia, em Nova York, Teruo Sato falava ao
telefone, a voz fria:
- Acabo de receber um telefonema, informan
do que o garoto est em Los Angeles. Contrate tantos homens quantos precisar. H
trs lugares em que devem se concentrar: hotis pequenos e fora de mo,
Disneylndia
e os estdios da Universal.

Teruo Sato poderia ter mencionado um quarto lugar, mas no o fez. Tencionava
cuidar do caso pessoalmente. 86 havia uma pessoa na Califrnia a quem Masao
poderia
procurar: Kunio Hidaka. Teruo chegaria primeiro.

Ao final da tarde, Masao registrou-se num pequeno hotel, perto do Cahuenga
Boulevard, em Hollywood, e passou a noite ali.

- Quanto tempo vai ficar? - perguntou o recepcionista.

- Uma semana.

 - 205

Masao saiu do hotel no incio da manh se
gunte. Cinco minutos depois, dois detetives particulares entraram no saguo,
com uma foto de Masao, e perguntaram ao recepcionista se poderia identific-lo.

- Claro. Deixaram de encontr-lo por pouco.
- O recepcionista consultou o livro de registros.
- Seu nome  Masao Harada. Passar uma sema
na aqui.

Os dois detetives trocaram um olhar de satisfao.

- Vamos esper-lo - disse um deles.

Foram para um lado do saguo, de onde no poderiam ser vistos da entrada.

Teriam uma longa espera. Masao no fazia a menor idia de que era procurado na
Califrnia,

mas seu instinto animal o salvou. No tencionava

voltar ao hotel. Planejava dormir num hotel diferente a cada noite, para que no
houvesse qualquer possibilidade de algum localiz-lo.

Comprou uma cueca, um jeans, uma camisa de malha, um leno e meias, e deixou as
roupas velhas no vestirio da loja. J carregava um fardo suficiente.

Comeu o desjejurn numa casa de panquecas no Sunset Boulevard e indagou ali como
ir para a Disneylndia. Dispunha de trs dias para cosu
206

mir, e decidiu que devia aproveit-los da melhor forma possvel. No havia
sentido em ficar trancado num quarto de hotel, remoendo os acontecimentos.

Meia hora depois, embarcou num nibus para a Disneylndia.

Se Hollywood foi um desapontamento, a Disneylndia se projetou alm das
expectativas mais

delirantes de Masao. Era uma terra de sonhos

em trinta hectares, um mundo encantado den
tro de mundos encantados.

Havia quase seis mil empregados cuidando do parque e 54 atraes. Masao no
sabia por onde comear. Foi para a Main Street e andou num bonde puxado por
cavalos.
Era outro mundo,

outro sculo.

Fez o Cruzeiro da Selva, com crocodilos abocanhando o barco, e subiu at a Casa
da rvore da Famlia Robinson sua.

Na Praa New Orleans, entrou na Casa MalAssombrada e se maravilhou com a
habilidade

com que eram criados os efeitos assustadores.

Havia uma Terra da Fantasia, e ele andou no tren do Matterhorn, fez o passeio
de lancha, vi

 - 207

sitou o fascinante  um Mundo Pequeno. Foi  Terra do Amanh e viajou de
submarino. Sentia-se exausto na hora em que o parque

fechou. No fora  Terra dos Ursos e  Fronteira

Selvagem, mas decidiu que voltaria  Disneylndia um dia.

Masao no imaginava como fora afortunado, pois havia uma dzia de homens  sua
procura no parque, e s passou despercebido por causa da grande quantidade de
visitantes.

Amanh visitarei os estdios da Universal, pensou Masao.

Mas, no final das contas, ele no teve tanta

sorte assim.

Voltando de nibus para Hollywood, Masao foi se registrar num hotel perto da
Sunset Strip. Comera na Disneylndia durante a tarde inteira, cachorroquente,
pipoca,
sorvete. Mas sentia fome de novo. Tornou a comer num restaurante alemo, onde
no era provvel que algum fosse procur-lo.

No outro lado da rua, em frente ao restaurante, havia uma discoteca, Whiskey-a-
Go-Go. Num sbito impulso, Masao entrou. Foi como se meter num inferno. Luzes
estroboscpicas
faiscavam pelo salo, e a msica de discoteca era to alta que

208

nem dava para pensar. Numa plataforma elevada, duas mulheres seminuas giravam
sem parar, enquanto na pista de dana diversos casais exibiam os ltimos passos.
Uma
jovem japonesa atraente

abordou Masao.

- Quer danar?

Masao sentiu-se tentado, mas havia dois problemas. Gostava de ir a uma discoteca
de vez em

quando, e Teruo devia saber disso. E a moa era japonesa, talvez estivesse  sua
procura. Por isso, Masao disse, polidamente:

- No, obrigado. Eu j ia sair.

E se retirou. Circulou pelas ruas por tempo suficiente para se certificar de que
ningum o seguia e depois retornou ao hotel.

Deitou-se, exausto, mas no conseguiu dormir Mais dois dias antes da volta de
Kunio Hidaka. 7br
narei a telefonar pela manh, pensou Masao, Talvez possam entrar em contato com
ele por mim.

Ele pensou em AI e Pete, e na longa viagem de caminho atravs dos Estados
Unidos.

Pensou no Matterhorn e no passeio de submarino.

Pensou na moa japonesa da discoteca. Ela tambm estaria  sua procura?

Pensou em Sanae.

E o sono no veio.

209

Sanae tambm no conseguia dormir. Deitada no escuro, ficou se revirando na
cama, at que no conseguiu mais agentar. Vestiu um chambre, foi para a
cozinha, tomando
o cuidado de no incomodar o pai e a me. Fez um caf que no queria tomar,
sentou-se  mesa para beber, pensando no que deveria fazer. Naquela tarde,
ouvira os
rumores mais incrveis na fbrica Matsumoto.

- Sabia que esto dizendo que o rapaz que trabalhou aqui era Masao Matsumoto? -
comentara o homem a seu lado na linha de montagem. Ouvi dizer que o Sr. Sato  o
novo dono.

E Sanae experimentara um pequeno choque.
O detetive dissera a verdade; e se dissera a verdade sobre isso, era possvel
que o resto de suas palavras tambm fosse verdadeiro, que a vida de Masao corria
perigo
e que ele morreria se o tio o encontrasse antes da polcia. E a culpa seria
dela. Por outro lado, no podia ser um ardil? E se o tenente Matt Brannigan
quisesse
prender Masao para lev-lo a julgamento por homicdio?

Sanae olhou para o telefone, sem saber o que fazer, consciente apenas de que
estava em suas mos a vida de uma pessoa de quem muito gos
      210

tava. Pegou o carto que o detetive lhe dera. Se
voc se lembrar de mais alguma coisa, telefone1 :           porfavor. Por duas
vezes ela estendeu a mo

para o telefone e depois mudou de idia. No ou

sava cometer um erro. Quem eram os amigos de Masao e quem eram os seus inimigos?

Pela manh, Masao deixou o hotel e procurou um telefone pblico. Havia uma
cabine no saguo, mas as chamadas poderiam ser localizadas. Ligou para as
Indstrias Matsumoto,
e a ligao foi transferida para o gabinete de Kunio Hidaka.

Telefonei ontem - disse Masao. - Preciso fa
lar com o Sr. Hidaka com a maior urgncia, e tive a esperana de que ele pudesse
ter voltado mais cedo.

- Sinto muito, mas s amanh - informou a secretria.

Portanto, haveria mais outro dia perdido.
- Se quiser deixar algum recado...

- No, obrigado. Voltarei a ligar amanh. Masao teria de encontrar um meio de
permanecer escondido por mais um dia. Dentro de 24 horas, porm, o pesadelo
acabaria.

Visitarei os estdios da Universal. Posso me

perder no meio da multido ali.

 211

Todos esperavam pelo GlarnourTram, centenas de turistas do mundo inteiro,
ansiosos em conhecer os estdios da Universal. Havia alemes, italianos,
franceses, japoneses
e suecos, todos falando sem parar, em suas lnguas nativas.

Masao se encontrava no meio da multido 

espera, sentindo-se seguro.

- Vamos embora, pessoal - disse uma guia. Embarquem no GlamourTram e tomem seus
lugares. Nossa aventura est prestes a comear.

O GlamourTram consistia em trs bondes li
gados, pintados de laranja e branco, com uma cobertura de metal listrada, os
lados abertos.

Masao embarcou e sentou-se. Deu uma olhada

nos passageiros ao redor, mas ningum parecia interessado nele. Partiram, e a
gula, uma jovem atraente, comeou a falar:

- Sejam bem-vindos aos estdios da Universal. At agora, vinte e seis milhes de
pessoas j nos visitaram, e nos sentimos felizes em t-los conosco hoje. A
Universal
foi fundada em 1915, quando Carl Laernmle...

Masao no prestava ateno ao que ela dizia. Observava as cenas incrveis nas
proximidades.

212

passando, vestidos como cavaleiros Viu atores

em armaduras, moas de biquni, homens em trajes de cowboy. O bonde fez a volta
num ter! i       reno em que havia
uma manso do velho Sul. A

frente da manso era espetacular, mas, quando

1 ,

1         o bonde passou por trs, Masao, constatou que no havia nada ali,
apenas estacas escorando a fachada.

O bonde atravessou uma ponte de madeira, que comeou a desabar quando se
encontravam no meio, assustando todos os passageiros. Mas quando chegaram ao
outro lado,
sos e salvos, a I

a ponte retornou  posio original.

Passaram por um lago de aparncia serena,
1         com uma aldeia ao fundo.

4, Aquela  Amityville - informou a guia, apontando em seguida para alguma coisa
no meio do lago. - Olhem ali!

1            Todos os olhos se viraram para uma coisa que deslizava na direo
do bonde.

 o tubaro!

O enorme tubaro mecnico passou em disparada pelo bonde. Desapareceu na gua e,
um momento depois, atacou a figura de um pescador num i         bote,
derrubando-o no lago. Masao assistira a Tuw         baro, e gostou de apreciar
o pequeno drama.

4,1

Aproximaram-se de outro lago, e o bonde avan
213

ou direto para a gua. Todos os passageiros comearam a ficar nervosos.

- Este  o Mar Vermelho - explicou a guia. Vai se abrir para vocs.

Quando o bonde alcanou a beira do lago, as guas se abriram  sua frente, para
lhe dar passagem, de uma forma quase milagrosa.

- Este  um genuno milagre eletrnico, que exige que cento e sessenta mil
litros de gua sejam drenados em menos de trs minutos, num lago com duzentos
metros de
comprimento, cinqenta de largura e trs de profundidade.  uma travessia muito
mais confortvel no Glamour
Tram do que nos tempos bblicos.

No decorrer da manh, Masao viu dubls saltarem de prdios em chamas, participou
da Batalha da Galxia, com robs disparando raios laser contra ele e outros
visitantes,
passou por uma avalanche numa geleira e foi ao camarim de Robert Wagner.

Foi no Centro de Entretenimento dos Visitantes

que o problema comeou. Masao assistia a um nmero com animais, envolvendo aves
e camundongos, quando sentiu que era observado. Virouse casualmente e deparou
com
os olhos de um

214

homem parado perto da entrada. O senso de perigo de Masao se tornara bastante
aguado nas duas ltimas semanas, e ele compreendeu no mesmo instante que aquele
homem
era um detetive. Havia dois outros homens com ele, que a um sinal seu se
afastaram para bloquear as outras sadas do auditrio.
O detetive comeou a avanar pela
multido para o lugar em que Masao sentava. No havia como escapar.

O nmero com os animais chegou ao fim. A platia levantou-se, aplaudiu com o
maior entusiasmo. A guia disse:

- Venham comigo, por favor.

Todos se encaminharam para a sada. Masao seguiu para o lado oposto, dirigindo-
se para o palco.
O detetive tentava abrir caminho pela multido para alcan-lo. Masao
subiu no palco. O treinador dos animais disse:

- Est indo na direo errada. Aqui ...
- Com licena, senhor.

Masao descobriu-se nos bastidores, em meio a uma confuso de adereos e gaiolas
com animais. Disparou por um corredor comprido, passou por uma porta, saindo
para
o sol forte. Olhou para trs, no momento em que o detetive tambm passava pela
porta.

- Pare a! - berrou o detetive, ao v-lo.

 - 215

Masao desatou a correr. Contornou uma es
quina e quase esbarrou num camelo.

Ei, tome cuidado! - gritou o condutor do camelo.

Havia um prdio de concreto  frente, com uma luz vermelha faiscando por cima da
porta. Masao abriu-a e descobriu-se diante de uma se
gunda porta. Abriu-a tambm e entrou num estdio enorme. Havia algumas pessoas
paradas ali ,perto, e Masao se adiantou, indo para o meio do grupo, na esperana
de
no ser descoberto por seus perseguidores. Uma mulher idosa estava parada ao
lado de Masao. Subitamente, um homem esfarrapado arrancou-lhe a bolsa e saiu
correndo.
- Peguem o ladro! - gritou a mulher.

Sem pensar, Masao mergulhou para cima do homem e derrubou-o. O homem fitou-o,
incrdulo.

- O que pensa que est fazendo? Isso no cons
ta do roteiro!

Uma voz furiosa bradou:

- Corta!

Masao virou-se, para descobrir que se encontrava diante de uma cmera.
O diretor acrescentou:

- tirem-no daqui! Vamos ter de filmar tudo

de novo!

216

E Masao tratou de escapar. As ruas l fora estavam apinhadas, mas Masao no se
sentia seguro. Seus inimigos sabiam que ele se encontrava ali. No momento em que
pensou
nisso, avistou o detetive dobrando uma esquina. Masao entrou num prdio grande,
que parecia um armazm.
O interior era um estranho museu, com milhares de adereos.
Havia antigas espadas e modernas pistolas de laser, caminhes de bombeiros e
fuselagens de avies. Havia mveis antigos de todos os sculos e indumentrias
dos tipos
mais variados. Masao deslocou-se para as sombras mais profundas, parou, o
corao disparado, ficou escutando. Ouviu passos na entrada, mas que logo se
afastaram.
O detetive devia ter ido buscar ajuda.

Preciso sair daqui, pensou Masao. Mas como? Dentro de poucos minutos, eles
estarovgiando todas as sadas. Fora encurralado. Seria capturado no momento em
que tentasse
escapar. No podia deixar que isso acontecesse. Tinha um encontro com Kunio
Hidaka no dia seguinte.

Todas as sadas dos estdios da Universal estavarn

sendo vigiadas. Detetives particulares, munidos com uma foto de Masao,
examinavam o rosto de

217

cada pessoa que se retirava. Era hora do almoo, e dezenas de atores e extras
atravessavam a rua

para os pequenos restaurantes nas proximidades.
O detetive que fora o primeiro a avistar Masao se mostrava impressionado com a
variedade de trajes. Observou um prncipe hindu passar pelo porto, numa tnica
suntuosa,
seguido por um escravo nbio; havia um gigante e um ano; um patriarca bblico e
um palhao com o rosto pintado. Ele no prestou muita ateno ao palhao.
Concentrava-se
em procurar Masao.

Masao tirou a fantasia de palhao num banheiro pblico, removeu a maquilagem do
rosto. Sabia que os homens de Teruo Sato espalhavam-se por toda parte agora, 
sua
procura. Teria de ir para um hotel e no sair do quarto at a manh seguinte,
quando poderia telefonar para Kunio Hidaka. A busca seria a rea de Hollywood, e
por
isso Masao pegou um nibus para Glendale, registrouse num pequeno hotel ali.

Mal podia esperar pela chegada da manh, quando tudo acabaria.






eruo Sato no se perturbou pelo fato de Masao ter se esquivado a seus homens
mais uma vez. No xadrez, no era o xeT

que que contava, mas sim o xeque-mate. O sobrnho se mostrara esperto, mas no o
bastante. Contava com Kunio Hidalia para salv-lo, porque no tinha mais ningum
a quem pudesse recorrer. Mas 1(unio Hidaka, no final das contas, era um
empregado e acataria as ordens de seu patro,

Teruo Sato.

Teruo usaria Hidaka para preparar a armadilha contra Masao.

Quando chegou a Los Angeles, Teruo soube que Hidaka viajara.

- Telefone para ele - ordenou Teruo  secretria de Hidaka.

- Pois no, Sr. Sato.

Teruo esperou na sala de Hidaka, fumando um charuto havana, que tirara da caixa
em cima da mesa.

- O Sr. Hidalia est na linha - informou a secretria.

Teruo pegou o fone.

- Hidaka?

- Bom dia, Sr. Sato. No sabia que planejava vir  Califrnia, ou ficaria
esperando para receb-lo. Eu...

222

- Onde voc est agora?

- No Arizona, procurando um local para uma nova fbrica. Ser...

- Quando voltar a Los Angeles?

- Planejava voltar na sexta-feira... amanh... mas ainda no conclu os negcios
aqui. devo voltar na segunda.

- Nada disso. Deve estar aqui amanh.
- Certo, Sr. Sato.

- Mandarei um avio da companhia busc-lo.
- Obrigado. - Kunio Hida.ka hesitou por um instante e depois acrescentou: -
Lamentei muito ao saber da morte do Sr. Matsumoto.

- Foi muito triste para todos ns. Ele era um grande homem.

- Era mesmo, e tambm um grande amigo. Sentirei saudade. Masao est em sua
companhia?
- Espero v-lo amanh.

Teruo desligou, recostou-se na cadeira, na maior satisfao.

Xeque-mate.

Kunio Hidaka era um homem preocupado. Havia coisas desconcertantes acontecendo.
Amava Y
neo Matsumoto e sua esposa, lamentara suas mor
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tes. Masao era quase como um filho para ele, mas vinha recebendo notcias
confusas sobre o rapaz. Havia algo errado. Primeiro, o telefonema de Teruo Sato,
ordenando-lhe
que voltasse a Los Angeles. Depois, um segundo telefonema, ainda mais
surpreendente.

Havia coisas ao seu redor que ele no compreendia, mas tinha certeza de que eram
terrveis. Mareara um encontro, e era com temor que aguardava o momento.

s nove horas da manh seguinte, Masao telefonou de seu quarto. No tinha mais
importncia se a chamada fosse localizada. Era tarde demais

para se preocupar com isso. Ia se pr  merc de Kunio Hidaka. No lhe restava
mais qualquer lugar em que pudesse se esconder.

Masao discou, e um momento depois foi atendido pela voz agora familiar da
secretria de Kunio Hidaka.

Gabinete do Sr. Hidaka.

- Telefonei antes. O Sr. Hidaka j voltou?
- A quem devo anunciar, por favor?

- Diga-lhe que  Masao.

- Um momento, por favor.

E logo a voz de Hidaka entrou na linha:

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- Masao-kun!

Masao experimentou um sbito sentimento de alegria. Finalmente!

Oh, Sr. Hidalia, preciso v-lo agora mesmo. Podemos nos encontrar em algum
lugar?

- Claro. Venha ao meu escritrio.

Masao, hesitou. Teria preferido que o encontro fosse em outro lugar. Era bem
provvel que estivessem vigiando a fbrica. Teria de tomar o maior cuidado.
Sabia que
se cometesse mais um erro seria o ltimo.

- J falou com meu tio Teruo? - indagou ele, cauteloso.

Houve uma pausa quase imperceptvel.

- No, ainda no - respondeu Kunio Hidalia. Masao se surpreendeu. Calculara que
Teruo j deveria ter entrado em contato com o Sr. Hida
ka. Mas Masao confiava naquele homem. Entregaria sua vida nas mos dele.

- Est bem. Irei ao seu escritrio. Gostaria de lhe falar o mais depressa
possvel.

- Venha agora.

Kunio Hidalia desligou, levantou os olhos para Teruo Sato.

Fez um bom trabalho - disse-lhe Teruo.
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Agora, volte ao Arizona e conclua seus negcios por l. Pode deixar que cuidarei
de Masao.

- Ele parecia ansioso em se encontrar comigo. Acho melhor..

- Como eu j disse, Hidaka, Masao anda com problemas. A morte dos pais aftou-o
profundamente. Deixe que eu cuido do meu sobrinho.

- Certo, senhor.

Kunio Hidaka fez uma reverncia, virou-se, saiu da sala.

Teruo deu instrues  secretria e acomodou-se para esperar. Estava tudo pronto
para a chegada de Masao. Desta vez no haveria erros.

Masao continuava sentado em seu quarto no hotel, ao lado do telefone, pensando.
Talvez devesse ter insistido para se encontrar com o Sr. Hidaka fora do
escritrio.
Iria se sentir exposto ali. Lembrou como sua foto fora distribuda aos
empregados na fbrica em Nova York. Com toda certeza, Teruo mandara distribuir a
foto em todas
asfbricas Matsumoto. E, no entanto, o Sr. Ridaka nada dissera a respeito.
Subitamente, tudo parecia fcil demais para Masao. Talvez seja porque
estoufugindo h
tempo demais, pensou

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ele. No posso acreditar que tudo vai acabar agora. De qualquer maneira, ele no
tinha opo. Kunio Hidaka era sua ltima esperana de permanecer vivo. Por um
instante,
Masao sentu-se tentado a ligar de novo para o Sr. Hidaka e transferir o
encontro para outro lugar. Mas, depois, pensou: No. Devo ter confiana absoluta
nele' Masao
deixou o hotel, a caminho do encontro.

Pegou um nibus para North Hollywood e saltou trs quarteires antes da fbrica.
Foi andando devagar, observando os rostos das pessoas na rua, procurando por
qualquer
coisa suspeita. Tudo parecia normal. Ningum dava a impresso de se interessar
por ele. Masao refletiu que estava sendo cauteloso demais. Parou diante do
enorme

prdio branco da fbrica, com a placa orgulhosa por cima: Indstrias Matsumoto.
Pessoas entravam e saam pelo porto principal, num fluxo constante. Masao
atravessou
a rua, encaminhouse para a entrada. J quase a alcanava quando uma voz de homem
disse, s suas costas:

- Fique quieto! No se mexa!

E se descobriu agarrado por um aperto implacvel.

227

Meia hora depois, Masao entrou na ante-sala do gabinete do Sr. Hidaka.

- Sou Masao Matsumoto - anunciou ele para a secretria, sentindo um mpeto de
orgulho por ser capaz de usar seu verdadeiro nome outra

vez. - Tenho um encontro marcado com o Sr. Hidaka.

Obedecendo s instrues que recebera, a secretria disse:

- O Sr. Hidaka est  sua espera. Entre, por favor.

- Obrigado.

Masao respirou fundo, abriu a porta da sala e entrou. Parou no mesmo instante,
ao perceber quem se encontrava ali.

Seja bem-vindo - disse Teruo Sato. - Eu o esperava, Masao.

Havia dois homens enormes parados nos lados da porta. Masao continuou onde
estava, rgido. Teruo olhou para os homens.

- Esperem l fora. Quero falar a ss com meu sobrinho.

Os dois homens saram, fechando a porta. Teruo tornou a fitar o sobrinho, com
uma expresso de intensa satisfao.

- Surpreso?

- Eu... onde... onde est o Sr. Hidalia?

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- Infelizmente, ele teve de ir embora. Mas no precisamos dele. Podemos resolver
os problemas

entre ns.

- No tenho nada a falar com voc.

- Tem, sim, meu caro sobrinho. Causou-me muitas dificuldades.

Masao no disse nada.

- Lamento dizer, mas se comportou de uma forma horrvel. Desgraou a famlia.

- Se h alguma desgraa, o culpado  voc.  um ladro, Est tentando roubar a
companhia que pertencia a meu pai.

- A companhia  minha. Sempre foi. No se pode roubar de si mesmo.

- O que vai fazer comigo?

- O que fiz com seu pai. Ele era o ladro. Sem a minha atuao, a companhia no
teria tanto sucesso. E ele nunca apreciou o que eu fiz. Nunca! - A voz de Teruo
transbordava
de dio. - Para

ele, eu no passava do cunhado pobre, a quem jogava uma migalha. Pois essa
migalha o sufocou at a morte! Deveria ter deixado a companhia para mim, pois
era eu quem
a merecia!

Teruo tremia de raiva, e percebeu-o de repente. Tratou de se controlar, com uma
tremenda fora de vontade.

- Mas isso  passado. Agora, devo pensar no

 - 229

meu futuro. Voc est em meu caminho, Masao. Por isso, deve desaparecer. Se
quiser se comportar direito, providenciarei para que sua morte seja indolor.. um
acidente
rpido.

Masao continuou calado. Teruo foi at a porta, abriu-a, sem desviar os olhos de
Masao, enquan
to dizia:

- Muito bem, podem lev-lo.

O tenente Matt Brannigan entrou na sala. Bom dia, Sr. Sato.

Teruo virou-se, aturdido. Em vez dos seus dois capangas, era o detetive quem
estava ali. E havia
uma surpresa ainda maior, Por trs dele, surgiram Kunio Hidaka
e dois guardas uniformizados.

- O que... o que significa isso? - balbuciou Teruo. - Por que ainda est aqui,
Hidaka?

O Sr. Hidaka respondeu:

- O tenente Brannigan pediu que eu ficasse. Teruo virou-se para o detetive.

- Como se atreve a interferir nos negcios da minha companhia?

Havia indignao em sua voz.

-  sobre isso que quero lhe falar - disse o tenente Brannigan. - No  a sua
companhia. Segundo a cpia do testamento que me foi mostrada, pertence a seu
sobrinho.

A mente de Teruo trabalhava depressa.

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- H... claro, claro. Mas o rapaz sofreu um colapso nervoso. Como sabe,
assassinou um homem.
- No, no sei - respondeu o tenente Brannigan. - S tenho a sua palavra a
respeito.

- E que deve ser suficiente. Meu sobrinho precisa de cuidados mdicos.
Providenciarei para que os receba. Agora, devo pedir a todos que se retirem,

Ningum fez qualquer movimento.

- Voc est liquidado - comentou Matt Brannigan.

- Liquidado? Mas do que est falando?

- Tenho um mandado de priso contra voc. Teruo no podia acreditar.

- Minha priso? Voc enlouqueceu? Quais so as acusaes?

- Quatro acusaes de homicdio e uma de tentativa de homicdio.

- Mas isso  ridculo! - A mente de Teruo funcionava a toda velocidade, tentando
calcular o que estava acontecendo. - Est cometendo um erro terrvel.

- Nada disso - respondeu o detetive. - Voc  que cometeu um erro. Falei com
Tadao Watanabe. Ele me contou que voc j tinha conhecimento do testamento.
Esperava
que o Sr. Matsumoto lhe deixasse metade da companhia. Quando desco
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briu que isso no aconteceria, decidiu se apoderar de tudo. E tramou o acidente
com o avio. Depois, tentou remover o ltimo obstculo que ainda res
tava... Masao.

- Voc ficou louco!

- No incio desta manh, o Sr. Hidaka e eu conversamos sobre o seu plano de
atrair Masao at aqui, para um encontro que jamais ocorreria. Esperei fora do
prdio
e tive uma longa conversa com Masao, quando ele chegou.

Teruo Sato comeava a recuperar a confiana. No importava o que eles
suspeitavam. Aqueles idiotas no dispunham de qualquer prova. Fora mais esperto
do que todos.

- Deu ouvidos a um rapaz com um desequilbrio mental. No existe nenhuma prova.

- Est enganado.

Foi Masao quem falou. Ele meteu a mo no bolso, tirou um pequeno gravador.
Apertou um boto e a voz de Teruo soou no silncio da sala:

- A companhia  minha. Semprefo. No se pode roubar de si mesmo.

Teruo Sato empalideceu.

- O que vai,fazer comigo?

- O quefiz com seu pai. Ele era o ladro... Todos se mantinham imveis,
escutando Teruo condenar a si prprio.

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-...Voc est em meu caminho, Masao. Por isso, deve desaparecer. Se quiser se
comportar direito, providenciarei para que sua morte seja indolor.. um acidente
rpido.

Masao desligou o gravador. Havia um silncio profundo na sala. Todos olhavam
para Teruo Sato. Ele tentou falar.

- Eu... eu...

Mas no havia mais nada que pudesse dizer.
O gravador j dissera tudo. o tenente Brannigan virou-se para os dois guardas.

- Eu o levarei de volta a Nova York esta tarde.

Os guardas tiraram Teruo da sala.

- O que vai acontecer com ele agora? - indagou Masao.

- Ser levado a julgamento e considerado culpado. Sua prpria voz o condenar. A
gravao saiu perfeita.

- Nem podia ser de outra forma - declarou Masao, orgulhoso.  O gravador foi
fabricado pelas Indstrias Matsumoto.

Pouco depois, os trs tomavam ch no refetrio particular de Kunio Hidaka.
Masao virou-se para o tenente Brannigan.

No sei como poderei algum dia lhe retribuir. Quem sabe se algum dia no
visitar o Japo com sua esposa, como meus convidados?

O tenente Brannigan sorriu.

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- Eu bem que gostaria. - Ele refletiu no quo perto estivera de despachar aquele
rapaz para a morte e acrescentou: - Gostaria muito.

Quais so os seus planos agora, Masao-kun? perguntou Hidaka.

- Quero levar as cinzas de meu pai e minha me para o Japo, e providenciar um
funeral apropriado.

Kunio Hidalia acenou com a cabea.

- Cuidarei para que sejam trazidas de Nova York para c imediatamente. Um avio
o levar a Tquio no momento em que desejar. H mais alguma coisa que eu possa
fazer
por voc?

Masao pensou por um momento.

- H, sim. Existe uma moa chamada Sanae Doi, que trabalha na fbrica em Nova
York. Eu gostaria que ela fosse promovida e recebesse um aumento.

Kunio Hidaka escreveu uma anotao,
- Assim ser feito.

- E h um capataz trabalhando ali que se chama Oscar Heller. Quero que ele seja
despedido. Kunio Hidaka balanou a cabea, escreveu outra anotao.

- Mais alguma coisa?

- S uma. - Masao tirou um tquete de penhor do bolso, entregou-o a Kunio
Hidaka. - Eu gostaria de recuperar o relgio que meu pai me deu.

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Masao olhava pela janela do jato Silver Arrow,
11        enquanto o avio se elevava gracioso e circulava -1

sobre Los Angeles.

O avio se inclinou devagar, seguiu para oeste, na direo do sol poente. Ele e
os pais finalmente voltavam para casa.

Masao pensou em tudo o que lhe acontecera naquele pas.

Pensou em Higashi e na luta mortal que ha
viam travado.

Recordou a maratona e Jim Dale. i :

E Pete e AI.

E a DisneyIndia e os estdios da Universal. E o tenente Brannigan.

Masao tambm pensou em Sanae e compreendeu que um dia, muito em breve, estaria
de volta.

Este livro foi composto na tipologia Caslon 224 em corpo 11,5/18 e Impresso em
papel Offset 75Win2 no Sistema Cameron da Diviso Grfica da Distribuidora
Record.
